No centro de Uidá, dentro do antigo forte português onde as pessoas escravizadas eram mantidas antes de serem carregadas em navios com destino às Américas, um museu está a ser construído.
Não é um museu pequeno. O Museu Internacional da Memória e da Escravidão — o MIME, na sua sigla em francês — é um dos maiores projetos de infraestrutura cultural na história da África Ocidental, parte de um programa governamental que investiu mais de um bilião de francos CFA na infraestrutura cultural e patrimonial do Benim desde 2016. A sua abertura está prevista para 2027.
Para quem se preocupa com a história do tráfico transatlântico de escravos, com a diáspora africana, com a relação entre memória e justiça — este é um museu que importará.
O edifício e a sua história
O Forte Português de Uidá — Forte de São João Baptista de Ajudá — foi originalmente construído no início do século XVIII como um posto comercial. Tal como os fortes franceses e ingleses que ladeavam esta costa, tornou-se central para a organização do tráfico transatlântico de escravos. As pessoas escravizadas eram mantidas aqui — em condições concebidas para a máxima eficiência e mínima humanidade — antes de serem conduzidas pela Rota dos Escravos até à Porta do Não Retorno.
O forte mudou de mãos repetidamente ao longo dos séculos, permanecendo sob controlo nominal português até 1961, quando o Daomé (atual Benim) declarou a independência. Abrigou o Museu de História de Uidá durante décadas antes de ser fechado para renovação como parte do projeto MIME.
A decisão de construir o novo museu dentro do forte é deliberada. O edifício não é neutro. É um local específico de confinamento e de partida. O museu construído dentro dele habita um significado que já lá está.
O que o MIME conterá
Com base em planos arquitetónicos e comunicações governamentais, o MIME será organizado como uma viagem temática cronológica através da história da escravidão e da deportação transatlântica, conforme afetou o território do Benim — aproximadamente 400 anos de história.
O museu cobrirá:
- O Reino de Xwéda: O estado pré-daomeano que encontrou pela primeira vez os comerciantes europeus.
- O Reino do Daomé: O seu papel complexo como vítima do tráfico e como participante ativo.
- A Travessia (Middle Passage): A experiência do transporte e as comunidades da diáspora que se formaram nas Américas.
- Resiliência do Vodun: Uma secção significativa será dedicada ao sistema espiritual que sobreviveu à travessia e continua a moldar a vida religiosa global.
O MIME também incluirá um complexo turístico de 130 quartos e a reconstrução de um navio negreiro, tornando-o um destino capaz de acolher um número significativo de visitantes para pernoita.
Porque é que este museu importa de forma diferente
Existe uma versão da memorialização da escravidão que é fundamentalmente sobre a culpa europeia. Produz um tipo de turismo sombrio.
O MIME visa fazer algo diferente. É um museu construído em solo africano, para uma diáspora global, narrando a história a partir da perspetiva das pessoas mais afetadas por ela. O enquadramento do governo beninense é explicitamente sobre soberania e reclamação.
Esse enquadramento não apaga a complexidade do próprio papel do Daomé. A história do Benim não é simples. O Reino do Daomé foi tanto um estado que vendeu pessoas escravizadas quanto um estado cujo povo foi ele próprio escravizado. A muralha entre perpetrador e vítima nunca foi limpa, e um museu honesto não a desenhará de forma limpa. Mas a perspetiva a partir da qual essa complexidade é examinada será diferente aqui do que em qualquer museu na Europa ou nas Américas.
Informação prática
- Abertura: Esperada para 2027.
- Localização: Centro histórico de Uidá, dentro do Forte Português.
- Para visitantes da diáspora: O MIME foi concebido com a diáspora africana em mente. A sua abertura em 2027 torna esse ano um momento particularmente significativo para uma viagem às raízes em Uidá.
O MIME é mais do que apenas um edifício; é uma declaração de que o Benim está pronto para possuir e narrar a sua própria história.
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