Todos os anos, quando o harmatão começa a desvanecer e o calor de fevereiro se instala nas costas do Benim, uma melodia singular eleva-se dos bairros históricos de Ouidah (Ajudá). Não é o ritmo profundo do Vodum, nem os cânticos litúrgicos da Basílica, mas um som híbrido, metálico e percussivo. É o chamado da Burrinha, o coração pulsante do Carnaval de Ouidah.

Uma Travessia, Dois Destinos
O Carnaval de Ouidah não é apenas uma festa; é uma ponte lançada sobre o Atlântico. Encontra as suas raízes no século XIX, durante o regresso dos Agudás — africanos libertos e seus descendentes que voltaram do Brasil. Na sua bagagem, não transportavam apenas técnicas arquitetónicas ou receitas de culinária; traziam a alma festiva de Salvador da Bahia.
A Burrinha (literalmente "a pequena jumenta" em português) é a expressão mais pura desta mestiçagem. Enquanto no Rio o carnaval se tornou uma indústria mundial, em Ouidah permaneceu um assunto de família, um ritual comunitário onde cada máscara conta a história de uma linhagem.
A Dança da Burrinha: Máscaras e Mistérios
No centro do desfile, a personagem da Burrinha lança-se à frente. Transportada por um dançarino cujo corpo está escondido numa estrutura leve que representa uma jumenta, ela gira ao som de pandeiros e tambores quadrados (patingué).
Mas ela não está sozinha. À sua volta gravita um bestiário fantástico e social:
- Os Animais: O touro, o cavalo e até a serpente, recordando fábulas da selva e da cidade.
- As Figuras Coloniais: Personagens que usam máscaras de cera ou madeira, imitando com precisão irónica os governadores, os mercadores e as damas da alta sociedade do século passado.
- Mami Wata: A divindade das águas, muitas vezes representada com o seu cinto de píton, lembrando que, mesmo numa festa de estilo brasileiro, as divindades locais nunca estão longe.
O Riso como Ato de Resistência
Porquê mascarar-se de "senhor" ou de "jumenta"? Para os Agudás, o carnaval era historicamente um desabafo. Numa sociedade marcada pelas sequelas da escravidão e pela pressão colonial, o disfarce permitia inverter os papéis. Gozar com o poderoso através da sátira era uma forma de retomar a posse da própria identidade.
Como dizem frequentemente os anciãos do bairro Zomachi: "Rir do monstro é provar que ele não conseguiu devorar-te." Cada passo de dança da Burrinha é uma celebração da resiliência.
Da Tradição ao Alcance Internacional
Durante muito tempo confinado às ruelas de Zomachi e Maré, o carnaval deu um novo passo com o lançamento do Carnaval Internacional de Ouidah (CIO).
A primeira edição, em dezembro de 2023, transformou a cidade num palco mundial. Sob a direção de Wilfrid Houndjè, mais de 4.000 artistas e delegações vindas de Guadalupe, do Brasil e do Togo desfilaram pela Rota dos Escravos, transformando este caminho de dor numa avenida de alegria e reconciliação.
Destaques do CIO:
- O Desfile de Máscaras: Uma mistura única de Burrinha e máscaras tradicionais beninesas.
- O Fórum Científico: Conferências sobre o impacto económico do turismo cultural.
Horizonte 2027: Uma Ponte para as Caraíbas
A dinâmica do carnaval atinge hoje um novo patamar. Em 8 de abril de 2026, Ouidah acolheu uma delegação de relevo vinda da Guadalupe. O grupo carnavalesco "Point d'interrogation", sob o impulso da associação Minalèkô presidida por Ramsès Aguessy, veio mergulhar na cidade patrimonial para preparar a edição de 2027.
Esta visita, centrada no Centro CIAMO, permitiu intensos intercâmbios artísticos, mas assumiu sobretudo uma dimensão institucional histórica. Na presença de Coline Toumson-Venite (Presidente da ARAD e Conselheira do Chefe de Estado), os artistas puderam informar-se sobre os mecanismos de acesso à nacionalidade beninesa para os Afrodescendentes.
Para Wilfrid Houndjè, delegado-geral do CIO, o objetivo é claro: fazer de 2027 um ponto de encontro para todas as formações carnavalescas da Guadalupe, da Martinica e do Haiti. O percurso simbólico efetuado pela delegação, da Praça dos Leilões (Place aux Enchères) à Porta do Não Retorno, marca o início de uma nova era em que o carnaval já não é apenas uma festa, mas um ato de reencontro diplomático e cultural.
Como viver o Carnaval?
Se planeia visitar Ouidah para o Carnaval, aqui ficam alguns conselhos:
- A Data: Embora o grande festival internacional tenha datas variáveis, a tradição familiar da Burrinha está muito viva por volta do mês de fevereiro.
- O Local: Dirija-se à Praça Maro ou às proximidades da Casa do Brasil. É lá que a energia é mais autêntica.
- Respeito: O carnaval é festivo, mas está profundamente ligado a histórias familiares. Peça sempre autorização antes de fotografar membros de uma trupe nos bastidores.
O Carnaval de Ouidah é a prova de que a cultura é uma matéria viva, capaz de atravessar oceanos, sobreviver ao esquecimento e renascer mais forte, levada pelo ritmo eterno da Burrinha.
Descubra outras facetas da herança Agudá no nosso artigo sobre A Herança Brasileira.
Vivencie a História
Além das palavras, Ouidah é uma experiência física. Contate-nos para organizar uma imersão privada nos bastidores de nossas crônicas.


