Há casarões nas ruas de Ouidah que não se parecem com nada em toda a costa oeste-africana. Fachadas de argila revestidas de cal ocre, adornadas com baixo-relevos. Arcos em ogiva. Telhados de telhas vermelhas. Varandas ventiladas que dão para pátios internos onde crescem mamoeiros. Nomes gravados em pedra acima das portas: De Souza, Da Costa, D'Almeida, Paraíso, Domingo.
Essas casarões contam uma história que a maioria dos guias turísticos mal toca. São os rastros físicos de uma viagem de ida e volta atlântica única na história: homens e mulheres que partiram da África como escravizados, que atravessaram o oceano, que sobreviveram, que aprenderam ofícios, que conquistaram sua liberdade — e que voltaram. Não como vítimas. Como construtores.
Esses homens e mulheres são chamados de Agoudas. E em Ouidah, deixaram um bairro inteiro.
Quem são os Agoudas?
A palavra Agouda provavelmente vem do português Ajuda — o nome que os portugueses davam a Ouidah, tirado do forte São João Baptista da Ajuda que dominava a cidade. Em fon e iorubá, Agouda designava inicialmente brasileiros em geral, depois mais especificamente africanos que haviam retornado do Brasil com seus sobrenomes portugueses.
A comunidade agouda é uma comunidade composta, construída em duas fases.
O primeiro grupo é constituído de traficantes de escravizados portugueses e brasileiros que se instalaram na costa a partir do século XVII para gerenciar o comércio escravocrata. Esses homens — sendo o mais famoso Francisco Félix de Souza — tiveram filhos com mulheres africanas. Seus descendentes mestiços cresceram em Ouidah entre duas culturas, falando português e fon, praticando catolicismo e vodun, comerciando com europeus e servindo como intermediários junto aos reis de Abomey.
O segundo grupo, muito maior, chega principalmente após 1835. São africanos que haviam sido deportados como escravizados para o Brasil — principalmente para a Bahia — e que, após conquistarem sua liberdade por alforria ou compra, escolheram retornar à costa africana. Muitos haviam sido treinados em ofícios durante seu cativeiro: alvenaria, marcenaria, marchetaria, costura, sapataria. Voltavam com esses saberes, com a língua portuguesa, com os hábitos alimentares brasileiros, com uma relação particular ao catolicismo mesclado com candomblé — e com uma identidade híbrida que ninguém mais possuía.
Hoje, as famílias agoudas representam entre 7 e 10% da população de Benin. Identificam-se por seus sobrenomes: De Souza, Da Silva, Da Costa, D'Almeida, Paraíso, Domingo, Gomes, Da Piedade. Encontram-se concentradas em quatro cidades costeiras: Ouidah, Porto-Novo, Grand-Popo e Agoué.
Francisco Félix de Souza: O Homem que Fundou Tudo
Não se pode falar dos Agoudas de Ouidah sem falar de Francisco Félix de Souza — chamado de Chacha, ou Cha-Cha. Ele é ao mesmo tempo a personagem mais fascinante e mais ambígua da história da cidade.
Nascido em Salvador de Bahia por volta de 1754, filho de um comerciante português e de uma mulher escravizada, De Souza chega à costa africana na virada do século XIX. Instala-se primeiro em Aného (hoje no Togo), onde funda o bairro de Ajudá — ancestral do bairro Ajido encontrado em Ouidah. Depois, seguindo um dramático golpe político, torna-se o homem mais poderoso da região.
A história é assim: aprisionado pelo rei de Abomey Adandozan por uma disputa comercial, De Souza faz um pacto com o príncipe Gakpé, pretendente ao trono. Os dois homens selam um pacto de sangue. De Souza escapa, fornece armas e mercadorias ao príncipe rebelde, e Gakpé derruba Adandozan por volta de 1818 para se tornar o rei Ghézo — um dos soberanos mais poderosos da história de Daomé. Em agradecimento, Ghézo convida De Souza a se instalar em Ouidah e lhe dá o título de Chacha — representante comercial do reino, intermediário entre o rei e os comerciantes europeus.
De Souza então se instala em Ouidah e constrói um império. Ele gerencia o comércio de escravizados em larga escala, mantém um harém de mais de quarenta mulheres africanas, e deixa uma descendência tão numerosa que alguns descendentes estimam que a família ainda ocupa "metade das terras de Ouidah" hoje. Morre em 1849, com todas as honras de um grande chefe daomeano.
Seu legado é profundamente ambíguo. Por um lado, é o fundador da comunidade agouda de Ouidah, o arquiteto de sua influência e coesão social. Por outro, é um dos maiores traficantes de escravizados da história da costa oeste-africana — um homem cuja fortuna foi construída sobre a deportação de seres humanos. Essa contradição, a família De Souza a carrega até hoje, e não procura apagá-la. A Casa do Brasil em Ouidah — um edifício construído em 1930 pela família De Souza — testemunha isso com honestidade rara.
Hoje, uma estátua de Francisco Félix de Souza se ergue na Praça Chacha em Ouidah — a mesma praça que era chamada de Praça dos Leilões, onde os leilões de escravizados aconteciam. Essa coexistência não é acaso. Diz algo sobre como Ouidah escolhe olhar para sua história: sem esconder nada, sem simplificar nada.
1835: A Revolta que Mudou Tudo
Se a presença agouda em Ouidah é antiga, é um evento específico que lhe deu sua escala definitiva: a Revolta dos Malês na Bahia, em janeiro de 1835.
Na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, um grupo de africanos escravizados — na maioria iorubás e muçulmanos, chamados Malês na língua nagô — pegam em armas em Salvador de Bahia. A revolta é breve: dura apenas algumas horas antes de ser esmagada pelas forças coloniais. Mas suas consequências são duradouras. Mais de 70 insurgentes são mortos. Centenas compareceem perante tribunais brasileiros. Condenações chovem: pena de morte, flagelação, galés, e para muitos — expulsão para a África.
Esses homens e mulheres, africanos escravizados que haviam lutado por sua liberdade no Brasil, desembarcam na costa africana em Ouidah, Porto-Novo, Lagos e Agoué. Não falam mais bem as línguas de sua infância. Viveram no Brasil, alguns desde seu nascimento. Vestem roupas de brasileiros, comem pratos brasileiros, praticam catolicismo tingido de candomblé. Os nativos os veem com desconfiança — são percebidos como estrangeiros. Eles veem os nativos com certa distância — os consideram "selvagens" comparado ao seu modo de vida urbano brasileiro.
Essa dupla exclusão não impede sua integração. Rapidamente, graças a seus saberes artesanais e redes comerciais, formam uma classe social influente. Constroem. Abrem oficinas. Enviam seus filhos para escolas de missões católicas — as únicas na região dispostas a aceitar seus filhos. Falam português em seus lares e o ensinam como marca de identidade e distinção social.
O Bairro Brasil: Uma Cidade Dentro da Cidade
Em Ouidah, a geografia em si porta os rastros desse retorno. A cidade é estruturada em bairros que mais ou menos correspondem às grandes comunidades históricas: os Xueda (povo original), os Fon, os Iorubá/Nagô, e os Agoudas. Estes últimos habitam principalmente os bairros Brasil (também chamado Ajido), Zomaï e Docomè, agrupados não longe da antiga Praça dos Leilões.
Esse posicionamento geográfico é carregado de significado. Os Agoudas se instalaram precisamente onde o tráfico acontecia — perto do mercado de escravizados, do forte português, dos edifícios das feitorias. Alguns tinham ligações familiares diretas com esses lugares. Voltavam à cidade que os havia enviado, ou havia enviado seus ancestrais.
Nesses bairros, encontram-se hoje os vestígios da arquitetura afro-brasileira que os Agoudas introduziram em Ouidah. Esse estilo é o resultado de uma mistura única: técnicas de construção aprendidas no Brasil — paredes de argila recobertas de cal, acabamentos em baixo-relevo, telhados de telhas, arcadas e varandas de madeira ventiladas — aplicadas na costa africana com materiais locais disponíveis.
Essas casarões não se parecem nem com a arquitetura africana tradicional de terra e palha, nem com a arquitetura colonial europeia clássica. São algo inédito — uma forma híbrida nascida da travessia, do exílio e do retorno.
A Casa do Brasil — hoje Casa da Memória — é o edifício mais emblemático desse legado. Construída em 1930 pela família De Souza, sucessivamente serviu como edifício administrativo, espaço museológico temporário (para abrigar coleções durante a reforma do museu histórico), e como lugar de memória dedicado à diáspora africana. Abriga notavelmente retratos de famílias agoudas, correspondências comerciais da época, objetos rituais que testemunham o sincretismo particular dos Agoudas — católicos e adeptos do vodun ao mesmo tempo.
O problema é que muitos desses casarões afro-brasileiros estão hoje em estado avançado de deterioração. Propriedades indivisas entre muitos herdeiros que não conseguem chegar a um acordo, expostas a chuvas tropicais e cupins, eles desaparecem progressivamente. Pesquisas realizadas no início dos anos 2000 documentaram o desaparecimento de dezenas desses edifícios em algumas décadas. Cada casarão que desaba carrega consigo uma página dessa história.
Uma Cultura Híbrida, Ainda Viva
O legado agouda em Ouidah não se resume às fachadas de pedra. Está também na comida, na música, nas festas, nos nomes.
A culinária é um dos legados mais tangíveis. A fechouada — adaptação beninense da feijoada brasileira, esse ensopado de feijão preto e carnes diversas nascido nas cozinhas de escravizados na Bahia — ainda é preparada em famílias agoudas de Ouidah em grandes ocasiões. O kokada — doce feito com amendoim torrado e açúcar de cana — ainda é vendido em alguns mercados. Esses pratos não são encontrados em restaurantes para turistas. São comidos em família, durante festas e cerimônias, como marcadores de identidade.
A música: os Agoudas importaram a bourian (do português burinha, pequena burra) — uma festa folclórica brasileira sem dimensão religiosa, o que a distingue de todas as outras celebrações regionais. Durante a bourian, uma pequena burra é exibida, personagens mascarados aparecem, e duas bonecas gigantes chamadas Yoyo e Yaya, representando segundo a tradição os proprietários de fazendas escravagistas no Brasil. Essa festa é também a ocasião da entronização do Chacha — o título de chefe da comunidade agouda, transmitido na família De Souza desde Francisco Félix. Estamos agora no Chacha VIII.
O sincretismo religioso: os Agoudas são oficialmente católicos, mas sua prática do catolicismo é profundamente marcada pelo vodun e candomblé. Construíram capelas em suas casas e fundaram confrarias católicas em Ouidah. Ao mesmo tempo, muitos deles mantêm relações com os conventos vodun da cidade. Francisco Félix de Souza mesmo, católico declarado, tinha seu próprio santuário familiar vodun e foi enterrado com as honras de grandes chefes daomeanos — incluindo quatro sacrifícios humanos rituais que seus filhos tentaram em vão impedir.
Os sobrenomes: os nomes de família portugueses e brasileiros que os Agoudas carregam são uma história em si mesmos. Alguns vêm de traficantes de escravizados cujos ancestrais eram escravizados por eles — carregam o nome dos que os escravizaram, mas o tornaram seu. Outros são deformações de nomes africanos passados pelo molde brasileiro. Ainda outros foram deliberadamente escolhidos, como marcas de distinção social na cidade. Cada sobrenome é um pedaço de história atlântica.
O Que Você Pode Descobrir Hoje
Um passeio pelos bairros históricos de Ouidah é a melhor maneira de se aproximar do legado agouda. Você deve olhar para cima, observar as fachadas, abrir portas quando convidado.
Sítios principais:
A Casa do Brasil / Casa da Memória é o ponto de partida essencial. Localizada no coração histórico, traça a história da comunidade afro-brasileira de Ouidah e a relação entre Benin e Brasil. Horários de abertura são variáveis — consulte seu guia ou o escritório de turismo de Ouidah.
A Praça Chacha (antiga Praça dos Leilões) ainda carrega a estátua de Francisco Félix de Souza. Essa praça está sendo reabilitada como parte do grande programa de reconstrução da cidade histórica. Foi aqui que os leilões de escravizados aconteciam, metros das casas agoudas. A proximidade é intolerável e instrutiva.
O Museu da Família De Souza, adjacente à casa familiar, preserva retratos de Francisco Félix de Souza e seus dois filhos maiores, objetos familiares, e rastros da vida quotidiana da comunidade agouda no século XIX.
Passeio no bairro Brasil / Ajido: um guia local pode levá-lo pelas vielas do bairro para identificar casarões afro-brasileiros ainda de pé. Alguns estão em bom estado, outros abandonados. Cada um tem uma história. Fachadas adornadas com baixo-relievo, arcos em ogiva, telhados de telhas — reconhecíveis em seu estilo único, na metade do caminho entre Bahia e África Ocidental.
Fundação Zinsou (Villa Ajavon): esse museu de arte contemporânea instalado em uma vila afro-brasileira restaurada de 1922 é o exemplo mais bem-sucedido do que essas casas podem se tornar quando preservadas e valorizadas. A fundação gastou cerca de €150.000 para restaurar a Villa Ajavon. Hospeda exposições de artistas beninenses e africanos contemporâneos, e seu café é um dos poucos lugares agradáveis para descansar no coração de Ouidah.
Dicas Práticas
- O passeio pelo bairro Brasil é melhor feito de manhã, antes do calor.
- Vá com um guia local: muitas casas não são sinalizadas, e os proprietários às vezes estão presentes e dispostos a compartilhar sua história.
- Evite fotografar pátios privados e moradores sem permissão explícita.
- Melhor época do ano para encontrar a comunidade agouda em suas cerimônias: a festa da bourian e celebrações católicas de certas famílias (pergunte ao escritório de turismo pelas datas locais).
Um Patrimônio em Perigo — e em Reconstrução
A história dos Agoudas de Ouidah ilustra uma tensão que toda a cidade está vivenciando hoje: entre memória desaparecendo e reconstrução acelerando. De um lado, casarões afro-brasileiros centenários se deteriorando por falta de meios e acordo entre herdeiros. Do outro, um programa governamental de centenas de milhões de euros reconstruindo a cidade histórica, com fortes, museus, ruas, hotéis.
A pergunta que sempre surge nessas situações é: quem decide o que merece ser salvo, e como? Os casarões agoudas não fazem parte do programa oficial de reabilitação na sua versão atual. São propriedades privadas, difíceis de integrar em um projeto estatal. E no entanto, são um dos patrimônios mais originais e insubstituíveis da cidade.
O que é certo é que o tempo está trabalhando contra eles. Cada estação de chuvas é um risco adicional. E uma vez que um casarão afro-brasileiro desaparece, apenas fotografias permanecem.
Vir a Ouidah e levar tempo para se perder pelas vielas do bairro Brasil é também um ato de memória. Olhar essas fachadas é reconhecer que algo extraordinário aconteceu aqui — que pessoas arrancadas de seu continente, transportadas à força, encontraram o meio de voltar e reconstruir, com as mãos e conhecimentos que lhes foram dados apesar deles.
Essa história não é simples. Está cheia de contradições, violências, reviravoltas. Mas é real. E está ali, inscrita na pedra das casas de Ouidah — para aqueles que levam tempo para olhar.
Planeje Sua Visita ao Bairro Brasil
Hospedagem, guias especializados e acesso à Casa do Brasil. Nossa equipe de concierge organiza passeios guiados pelo bairro Brasil, com possíveis encontros com membros de famílias agoudas.
Fontes: Cairn.info / Milton Guran (tese EHESS), Presses Universitaires de Perpignan, EHESS Usages Publics du Passé, Wikipedia FR/EN, Nofi Media, Pulse CI, OpenEdition Journals, voyageavecnous.com.
Veja também:
- Os Santuários Vodun de Ouidah: Zô Houé e Mami Toligbé
- Mami Wata em Ouidah: A Deusa das Águas Que Atravessou o Atlântico
Vivencie a História
Além das palavras, Ouidah é uma experiência física. Contate-nos para organizar uma imersão privada nos bastidores de nossas crônicas.



