As barracas de suvenir perto do Templo das Pitons vendem máscaras de madeira, camisetas estampadas e estatuetas produzidas em série. A maior parte não foi feita em Ouidah. Parte não foi feita nem no Benin. Se é isso que você veio buscar, vai achar fácil e voltar para casa com objetos iguais aos de todo mundo.
O artesanato de verdade de Ouidah não está nessas barracas. Está no mercado central, nas oficinas escondidas nos bairros residenciais e nas mãos de quem faz. Este guia é sobre encontrar essas coisas.
O mercado central
O mercado central de Ouidah, perto do Forte Português, não é mercado turístico. É onde a cidade compra comida, tecido, utensílio e o necessário do dia a dia. É barulhento, cheio e funciona numa lógica que não foi desenhada para visitantes. Exatamente por isso vale a visita. Quem conhece o Mercado de São Joaquim, em Salvador, sabe o tipo de lugar: o mercado que serve à cidade primeiro, e ao visitante por acaso.
Tecido wax. A seção de tecidos vende wax holandês, ancara e algodão estampado local, por metro. As estampas são da África Ocidental: desenhos geométricos, motivos figurativos, edições comemorativas de eleições e festivais. Os preços vão de 2.000 a 10.000 CFA (R$ 19 a R$ 95) o metro, conforme a qualidade e a origem. Um alfaiate do próprio mercado transforma alguns metros em camisa ou vestido em um dia.
Temperos e comida. O camarão seco, o peixe defumado e as misturas de tempero vendidas no mercado são os sabores da cozinha beninense, e qualquer baiano vai reconhecer ali o parentesco com o tabuleiro do acarajé: o camarão seco e o azeite de dendê fizeram a travessia junto com os orixás. O piment em pó, a pimenta pequena e intensa que sustenta a maioria dos molhos, sai por algumas centenas de CFA o saquinho. Viaja bem e não se encontra fora da África Ocidental.
Objetos do cotidiano. Bacias esmaltadas, sandálias de plástico, cestos trançados e as ferramentas da vida diária preenchem o resto do mercado. Não são suvenires no sentido convencional, mas são registros honestos de como Ouidah vive. Uma cuia de cabaça, usada para beber poyo, custa 500 CFA (R$ 5) e carrega mais da cidade que qualquer máscara de madeira.
Oficinas de artesãos: o artesanato de verdade
Ouidah tem uma economia artesanal ativa que precede o turismo em séculos. Escultores vodun, fundidores de bronze, tecelões e entalhadores trabalham em oficinas espalhadas pelos bairros residenciais. A maioria dos visitantes nunca as encontra. Um bom guia, sim.
Escultura vodun e ferro forjado
O artesanato mais característico de Ouidah é a escultura vodun: figuras de ferro forjado representando as divindades do panteão. Gu, o vodun do ferro e da guerra, irmão do Ogum que o Brasil conhece — as correspondências entre os dois panteões vão muito além dele —, é o patrono dos ferreiros, e a influência dele é visível no trabalho. As figuras são pequenas, pesadas e carregadas de significado. Uma Mami Wata em ferro, um oxê de Gu, um bastão de Legba: não são objetos decorativos. São representações de forças espirituais. Compre com respeito e de quem fez.
Os preços das figuras pequenas de ferro forjado começam em 5.000 CFA (R$ 48). Peças maiores custam bem mais. Pergunte qual divindade está representada. O artesão vai contar a história. A história é parte do que você está comprando.
Fundição de bronze
O Benin tem uma tradição de bronze que remonta ao Reino do Daomé, influenciada pelas tradições mais antigas do Império do Benin, na atual Nigéria. Os fundidores de Ouidah produzem figuras, placas e joias pela técnica da cera perdida. O trabalho é detalhado e demorado.
Uma figura pequena de bronze custa 10.000 a 30.000 CFA (R$ 95 a R$ 285). Placas e peças maiores, bem mais. Compre direto da oficina. A qualidade é melhor, o preço é mais justo e o dinheiro vai para o artesão, não para o atravessador.
Tecidos e tecelagem
Além do wax do mercado central, Ouidah tem tecelões que produzem tiras estreitas de algodão em teares tradicionais. As tiras são costuradas para formar peças maiores, usadas em roupas cerimoniais e, cada vez mais, na moda contemporânea. Uma echarpe ou painel de algodão tecido custa 5.000 a 15.000 CFA (R$ 48 a R$ 145).
Entalhe em madeira
O entalhe em Ouidah vai das máscaras produzidas em série ao trabalho figurativo genuinamente habilidoso. A diferença salta aos olhos. As peças de série são repetitivas, lixadas até a uniformidade e escurecidas com tinta. O trabalho bom tem marca de ferramenta, assimetria e a energia particular do que foi feito à mão.
Uma boa talha de divindade vodun, de figura Zangbeto ou de máscara Egungun, comprada direto do entalhador, custa 10.000 a 50.000 CFA (R$ 95 a R$ 475). Pergunte sobre a madeira, as ferramentas, a inspiração. O entalhador vai contar.
O que evitar
Máscaras e estátuas de produção em massa. As barracas perto do Templo das Pitons e da Porta do Não Retorno vendem peças produzidas em série, muitas vezes fora do Benin. Não têm relação com as tradições artesanais de Ouidah. Se quiser uma máscara, compre de quem entalhou.
Itens de espécies ameaçadas. Marfim, certas madeiras de lei e peles de animais caem nas regras da CITES e podem ser ilegais de exportar, e de entrar no Brasil; a Receita Federal apreende. Na dúvida, não compre.
Qualquer coisa que o vendedor não saiba explicar. Se quem vende uma figura vodun não sabe dizer que divindade ela representa, o objeto não foi feito por ele e provavelmente não foi feito em Ouidah.
Conselhos práticos
Pechincha. No mercado central e com vendedores de rua, negociar é esperado. Comece em torno da metade do preço pedido. Negocie com calma e bom humor. É uma conversa, não um conflito.
Nas oficinas, os preços são mais firmes. Você está pagando habilidade, material e tempo. Pergunte sobre a peça e sobre quem fez antes de falar de valor. A transação rende mais quando parece troca, não queda de braço.
Pagamento. Só dinheiro, em francos CFA. As oficinas não aceitam cartão. Traga o suficiente de Cotonou; o guia de itens essenciais para viajar ao Benin explica como resolver câmbio e saques.
Transporte das compras. Figuras vodun pequenas, bronzes e tecidos cabem fácil na mala. Talhas grandes podem exigir tratamento especial no aeroporto. Peça ao artesão para embalar bem. Declare itens de valor alto na alfândega se perguntarem.
Envio. Algumas oficinas organizam envio de peças maiores. Leva tempo e custa caro. Se pretende comprar algo substancial, pergunte sobre envio antes de fechar.
O concierge da Ouidah Origins trabalha com guias que conhecem as oficinas de Ouidah de dentro. Eles levam você ao ferreiro forjando uma figura de Gu, à tecelã no tear, ao fundidor tirando o bronze do molde. São essas as compras que importam.
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