Pontos Principais
- Os Egungun são as máscaras dos ancestrais entre os iorubás. No Benim, também são chamados de "revenants" (os que voltam) ou "kouvito".
- Segundo a tradição, o culto vem da região de Oyó e foi fundado por Xangô, divindade do trovão e rei lendário.
- A roupa é feita de camadas de tecido, rede e amuletos que escondem totalmente quem a veste. Os espectadores nunca devem tocá-la.
- Só os homens vestem a máscara, mas as mulheres têm lugar no culto. O Geledé, culto iorubá dedicado às mães, está na lista da UNESCO.
- No Brasil, o culto sobrevive na ilha de Itaparica. O Ilê Agboulá é patrimônio cultural do Brasil desde 2015.
Na multidão dos Vodun Days, em Ouidah, algo começa a se mover. Homens com varas compridas fazem o público recuar. Então ele aparece: uma figura alta, sem rosto, coberta de dezenas de panos, veludo, bordados, lantejoulas, amuletos. Quando gira, os panos se abrem numa roda de cores. Quando se aproxima, as pessoas abrem caminho.
É um Egungun. Quem já esteve num terreiro de Babá Egum em Itaparica vai reconhecer a cena. Para quem o recebe, não é um dançarino fantasiado. É um ancestral que voltou ao convívio dos vivos.
Este pilar explica quem são os Egungun, de onde vem o culto, como chegou a Ouidah, o que significa a sua roupa e como ele sobreviveu do outro lado do Atlântico, numa ilha da Bahia.
Quem são os Egungun?
A palavra Egungun (também escrita Egúngún, Egum ou Eégún) vem do iorubá. Designa toda mascarada ou figura mascarada que torna visíveis os espíritos dos ancestrais. Os iorubás falam também dos Ará Ọ̀run, "os do além", isto é, os mortos no seu conjunto.
No Benim, costumam ser chamados de revenants, "os que voltam", ou ainda kouvito. A palavra diz tudo: são os mortos que retornam.
No pensamento iorubá, os mortos não estão ausentes. São forças ainda ativas na vida dos seus descendentes. É preciso honrá-los, consultá-los e chamá-los de volta à terra regularmente. O Egungun é o meio desse retorno. A máscara não é uma imagem do ancestral: para os fiéis, ela é o ancestral, presente durante a saída.
De onde vem o culto?
Oyó e Xangô
O culto dos Egungun pertence antes de tudo ao mundo iorubá, no sudoeste da atual Nigéria. A Wikipédia descreve variantes em cidades como Ogbomoso, Ibadan e Ilobu.
Segundo a tradição registrada pela Wikipédia em português, ele nasceu na região de Oyó, o grande império iorubá que dominou por muito tempo os vizinhos, entre eles o Daomé. A mesma tradição faz de Xangô, divindade do trovão e rei lendário de Oyó, o fundador do culto aos egunguns, o único com autoridade sobre esses espíritos. Para quem conhece o candomblé, a ligação entre Xangô e os mortos não é novidade.
Uma história de gênero
A tradição conta também algo surpreendente. Segundo histórias ligadas ao Ifá, eram as mulheres que controlavam originalmente o ritual, até serem enganadas pelos homens. A pesquisadora nigeriana Oyeronke Olajubu estudou esse lugar histórico das mulheres no sistema religioso iorubá.
Hoje, só os homens vestem a máscara. As mulheres nunca usam a roupa. Nem por isso estão ausentes das saídas: cantam, acompanham e participam da vida das linhagens que honram os seus ancestrais.
Como os Egungun chegaram a Ouidah
O Benim tem uma grande população iorubá, muitas vezes chamada nagô, sobretudo no leste do país, em torno de Porto-Novo, Kétou e Pobè. Os Egungun são muito presentes ali.
Em Ouidah, a história passa pelo Daomé. Segundo o jornal beninense La Nouvelle Tribune, uma tradição atribui ao rei Guezo (1818-1858) a chegada ao Daomé de cativos iorubás vindos da atual Nigéria, que teriam introduzido o culto. Ainda segundo esse relato, Ouidah teria sido a cidade para onde foram enviados os primeiros promotores dos Egungun.
Esse relato deve ser lido pelo que é: uma tradição, registrada pela imprensa, e não um fato documentado em arquivos. Mas corresponde a uma realidade bem conhecida: as guerras entre o Daomé e os iorubás levaram ao Daomé muitos cativos iorubás, e com eles os seus cultos. Ouidah, porto cosmopolita onde viviam fons, iorubás, minas, europeus e afro-brasileiros, era um lugar natural para recebê-los.
Guezo e os iorubás
O contexto ajuda. A partir de 1730, o Daomé pagou tributo ao império iorubá de Oyó. Segundo a Wikipédia, foi Guezo, no poder desde 1818, quem acabou com isso: no início da década de 1820, ele se recusou a pagar, e em 1823 o conflito virou a seu favor.
Guezo fez depois guerras contra outros iorubás. Em março de 1851, atacou Abeokutá, a cidade dos egbás, para controlar as rotas do comércio de azeite de dendê. O ataque fracassou: os egbás, apoiados pelos britânicos, repeliram o exército do Daomé. Guezo, que por muito tempo defendera o tráfico, assinou em 1852 um acordo para encerrá-lo, sob pressão britânica.
Essas guerras levaram cativos iorubás ao Daomé. Alguns foram vendidos para as Américas a partir de Ouidah, e muitos chegaram à Bahia; outros ficaram. Eles e os seus descendentes mantiveram vivos os cultos iorubás no reino.
A volta dos nagôs do Brasil
Outra rota atravessa o Atlântico. Depois da Revolta dos Malês, em Salvador, em 1835, as autoridades da Bahia expulsaram muitos africanos libertos. Muitos eram iorubás, os nagôs. Uma parte se instalou nesta costa, em Lagos, Porto-Novo ou Ouidah, e se juntou à comunidade dos agudás.
Esses retornados traziam a língua portuguesa, o catolicismo, a arquitetura brasileira e, alguns deles, um conhecimento íntimo dos cultos iorubás, conservados e transformados na Bahia. Os Egungun de Ouidah estão no cruzamento dessas histórias.
Hoje, os Egungun aparecem em todo o sul do Benim, especialmente em Ouidah, Porto-Novo e Cotonou.
A roupa, um arquivo vivo
Camada sobre camada
A roupa do Egungun é uma construção complexa. A Wikipédia descreve os seus elementos:
- uma base de aso-oke, tecido feito à mão em faixas índigo e brancas, que lembra as mortalhas;
- uma rede que esconde completamente a identidade de quem veste a máscara, inclusive o rosto;
- panos sobrepostos, decorados com patchwork, tranças, lantejoulas, pompons e amuletos;
- elementos medicinais que dão à máscara o seu axé, o seu poder de agir.
No Benim, as roupas costumam ser feitas de tecidos suntuosos: veludo, bordados, contas, conchas, espelhos. Segundo La Nouvelle Tribune, esses ornamentos refletem o status e as qualidades do ancestral representado.
Por que "arquivo"
Cada roupa é enriquecida ao longo das gerações. Acrescentam-se tecidos, amuletos, objetos. Um Egungun antigo carrega no corpo a história da sua linhagem. É ao mesmo tempo um objeto sagrado e a memória de uma família.
Não tocar
Para os espectadores, o contato com um Egungun é proibido. Assistentes, muitas vezes com varas, mantêm a distância durante as saídas. Não é teatro: acredita-se que o contato com o mundo dos mortos é perigoso para os vivos. Se um Egungun vier na sua direção, recue com calma e siga as indicações dos assistentes.
O que faz um Egungun
Abençoar e advertir
Durante as saídas, os Egungun abençoam as famílias e as crianças. Também podem advertir: lembrar um dever esquecido, repreender uma falta, anunciar um perigo. Falam com uma voz alterada, que os assistentes traduzem quando necessário.
Acompanhar os mortos
Os Egungun estão ligados aos funerais e à memória dos mortos. Em várias tradições iorubás, um Egungun pode aparecer depois de uma morte para mostrar que o falecido se juntou aos ancestrais e continua cuidando dos seus. As saídas também marcam aniversários de morte e grandes festas de linhagem.
Por isso o Egungun importa tanto para as famílias: não é um espetáculo para os outros, mas um momento de reencontro com os seus.
Dançar
A dança está no centro das saídas. O Egungun gira e os seus panos se abrem como uma flor. Corre, para, avança sobre o público, recomeça. Os tambores acompanham cada gesto.
Reunir
O Odun Egungun, a festa anual dos Egungun, tem várias funções segundo a Wikipédia. Fortalece os laços entre as famílias e os seus ancestrais. Estimula o comércio, porque atrai gente de toda a região. E reúne comunidades de religiões diferentes em torno de um mesmo momento. Cada linhagem tem o seu dia de saída durante as festividades, que podem durar vários dias.
Uma saída, passo a passo
Cada comunidade tem os seus costumes, mas uma saída de Egungun costuma seguir o mesmo fio.
Ouve-se antes de ver. Os tambores anunciam as máscaras; no mundo iorubá, os tambores batá, ligados a Xangô, são associados aos Egungun. Depois, os assistentes abrem passagem e fazem o público recuar com as varas.
O Egungun entra. Dança, gira, para diante de uma casa, de uma família, de um grupo de crianças. Saúda, abençoa, às vezes chama alguém. Assistentes e parentes respondem, cantam, deixam pequenas oferendas ou dinheiro.
Em certos momentos, a máscara avança sobre a multidão. Todo mundo se afasta gritando, depois ri. Essa tensão faz parte do ritual: o ancestral está perto, mas pertence a outro mundo, e ninguém o toca.
Por fim, os Egungun se recolhem ao seu lugar de culto. A saída pode durar algumas horas, ou se estender por vários dias numa grande festa.
O que o Egungun diz sobre a morte
Para um visitante estrangeiro, o Egungun pode desconcertar. Vê-se uma máscara imponente, às vezes assustadora. Para quem a recebe, é antes de tudo uma alegria: a de reencontrar parentes que partiram.
Esse modo de viver com os mortos, de trazê-los de volta, de falar com eles, de deixá-los abençoar as crianças, diz algo simples: a morte não interrompe a relação. Os ancestrais continuam sendo da família, com direitos e deveres. Muitos visitantes da diáspora chegam a Ouidah com perguntas sobre ancestrais cujos nomes se perderam. O Egungun não responde a essas perguntas, mas oferece uma maneira de pensá-las: os mortos não estão só perdidos, também podem ser recebidos de volta.
A organização do culto
O culto dos Egungun se organiza por linhagens e por comunidades.
Na família, um ancião chamado Alagba preside os ritos aos ancestrais. Na comunidade, sacerdotes e iniciados formados na comunicação com os ancestrais conduzem as saídas.
No Brasil, segundo a Wikipédia em português, a hierarquia é muito estruturada: o Alapini é o sacerdote supremo, auxiliado pelos ojés. Os iniciados usam os ixans, longas varas rituais, para invocar os espíritos e conter os Egungun. As mesmas varas estão nas mãos dos assistentes no Benim.
Egungun, Geledé e Zangbeto
O Benim tem várias grandes instituições de máscaras. Vale a pena não confundi-las.
O Geledé, a máscara das mães
O Geledé é outro culto de máscaras iorubá, praticado pelas comunidades iorubá-nagô do Benim, da Nigéria e do Togo. Homenageia a mãe primordial, Iyà Nlà, e o papel das mulheres na sociedade. Os dançarinos usam máscaras de madeira esculpida, muitas vezes com cenas, animais ou personagens no alto.
A UNESCO proclamou o patrimônio oral do Geledé em 2001 e o inscreveu em 2008 na sua Lista Representativa. Descreve-o como a única sociedade de máscaras conhecida que é também governada por mulheres. No Brasil, o nome Geledé inspirou, por exemplo, o Geledés Instituto da Mulher Negra, em São Paulo.
Egungun e Geledé se respondem: um traz de volta os ancestrais, o outro celebra as mães.
O Zangbeto, guardião da noite
Os Zangbeto são máscaras de ráfia do povo gun, guardiões da noite e da ordem. Não representam ancestrais, mas espíritos noturnos. A roupa é de ráfia, sem forma humana, e o seu reduto é Porto-Novo.
Os três têm uma regra em comum: não se toca na máscara e não se tenta descobrir quem está debaixo dela.
Os Egungun no Brasil
Itaparica, a ilha dos ancestrais
O culto dos Egungun atravessou o Atlântico com os iorubás escravizados. Segundo a Wikipédia em português, chegou ao Brasil no início do século XIX e se concentrou na ilha de Itaparica, em frente a Salvador. Ali foram fundados vários terreiros: o de Vera Cruz, por volta de 1820, e depois o do Mocambo, por volta de 1830.
O mais conhecido hoje é o Ilê Agboulá (Ilê Babá Agboulá), no Alto da Bela Vista, em Ponta de Areia. Fundado no primeiro quarto do século XX, é apresentado pela Wikipédia como o primeiro terreiro do Brasil a cultuar os egunguns trazidos da África, e um dos poucos lugares do país dedicados exclusivamente a esse culto. A comunidade que o mantém vive na ilha há cerca de duzentos anos e reúne umas cem famílias, que vivem em boa parte da pesca.
Em 2015, o IPHAN reconheceu o terreiro como patrimônio cultural do Brasil.
Babá Egum
No Brasil, os ancestrais mascarados são chamados Babá Egum. O culto é exclusivamente masculino: segundo a Wikipédia em português, uma mulher jamais será iniciada no sacerdócio. Honra os ancestrais masculinos, enquanto outras tradições, herdeiras do Geledé, honram o poder das mães.
O célebre babalaô baiano Martiniano Eliseu do Bonfim (1859-1943), de quem falamos no nosso pilar sobre o oráculo Fa, era ele próprio ativo no culto dos ancestrais masculinos, os babá egum.
Um laço vivo
Para um visitante vindo da Bahia, ver um Egungun sair em Ouidah é reconhecer um gesto familiar. Para um beninense que descobre Itaparica, é a prova de que os seus ancestrais foram honrados do outro lado do oceano, durante e depois da escravidão. Esse vaivém entre as duas margens está no centro da história de Ouidah e dos seus agudás.
Ver os Egungun em Ouidah
Nos Vodun Days
O momento mais acessível são os Vodun Days, por volta da segunda sexta-feira de janeiro. Na edição de 2026, de 8 a 10 de janeiro, o público assistiu a desfiles rituais de máscaras sagradas, entre elas Egungun e Zangbeto, segundo a imprensa.
O clima é de festa, mas as regras são as mesmas. Os assistentes acompanham as máscaras e o público fica à distância.
Algumas dicas práticas: chegue cedo para conseguir um lugar de onde se veja sem ser empurrado para a frente. Use sapato fechado, porque a multidão se move rápido quando uma máscara avança. Mantenha a bolsa perto e as crianças ao alcance da mão. E, para fotografar, fique atrás da linha dos assistentes e use o zoom em vez de se aproximar.
O resto do ano
Fora do festival, as saídas de Egungun seguem o calendário das famílias e das comunidades: funerais, aniversários de morte, festas de linhagem. Não são organizadas para visitantes. Se tiver a sorte de cruzar com uma, fique afastado e siga a atitude dos moradores. Um guia local saberá dizer se a sua presença é bem-vinda.
Porto-Novo e além
Para ir mais longe, Porto-Novo, capital do Benim, onde vive uma grande comunidade iorubá, é um dos grandes centros dos Egungun. Um passeio de um dia a partir de Ouidah inclui também o museu Honmè, no antigo palácio real, e a Grande Mesquita construída por agudás que voltaram do Brasil.
Mais a leste, perto da fronteira com a Nigéria, Kétou é a antiga capital de um reino iorubá, o Ketu, nome que o candomblé baiano tornou famoso. A região de Kétou e de Pobè é um dos corações da cultura nagô no Benim, com os seus Egungun e Geledé. É uma viagem mais longa, para fazer com guia, mas permite ver essas tradições no seu lugar de origem.
Regras a respeitar
- Nunca toque num Egungun nem na sua roupa, mesmo que ele passe raspando.
- Siga os assistentes. Quem segura as varas sabe onde você deve ficar.
- Recue sem correr se um Egungun avançar sobre o público. É um momento previsto do ritual.
- Fotos. Nos desfiles públicos, costumam ser toleradas. Numa saída de família ou num rito, pergunte sempre ao guia ou a um responsável. Um "não" deve ser respeitado.
- Não pergunte quem está debaixo da máscara. É uma ofensa grave.
- Seja discreto se o Egungun falar com alguém: as palavras podem tratar de assuntos de família.
Para as regras de conduta nos lugares sagrados, consulte o nosso guia para viver o vodun com respeito.
Organizar um encontro com a cultura iorubá de Ouidah →
Fontes
- Egúngún, Wikipedia: definição, Ará Ọ̀run, roupa (aso-oke, rede, panos, amuletos, axé), proibição do toque, Alagba, máscara só para homens, Odun Egungun, Itaparica; referências: Adepegba (1984), Drewal (1978), Olajubu (2004).
- Culto aos egunguns, Wikipédia: Oyó, Xangô como fundador segundo a tradição, Vera Cruz (c. 1820), Mocambo (c. 1830), Alapini, ojés, ixans.
- Ilê Babá Aboulá, Wikipédia e IPHAN, Terreiro Omo Ilê Agbôula.
- La Nouvelle Tribune, "Le masque Egungun au Bénin : un symbole des liens entre vivants et morts", dezembro de 2024.
- UNESCO, "Oral heritage of Gelede".
- Afrik.com, "Bénin : à Ouidah, les Vodun Days 2026 battent leur plein".
- Revolta dos Malês, Wikipédia.
- Ghezo, Wikipedia: fim do tributo a Oyó (1823), ataque a Abeokutá (março de 1851), acordo de 1852.
- Martiniano Eliseu do Bonfim, Wikipédia.




