Desde 2022, chamava-se Bienal de Ouidah. Já trazia em si uma ambição singular: tornar esta cidade costeira beninense uma encruzilhada da criação artística vodun, um espaço de diálogo entre as estéticas africanas e os seus prolongamentos na diáspora. Mas em 2026, algo muda. Algo se aprofunda.
Chama-se agora Vodun Hwendo.
E esta mudança de nome não é cosmética. É programática.
O que significa Vodun Hwendo
Na língua fon, hwendo designa o caminho, o movimento, a travessia. Vodun Hwendo é literalmente o caminho do Vodun — a trajetória espiritual, artística e memorial que as comunidades vodun traçam de lado a lado do Atlântico há séculos. O nome já anuncia a intenção: esta bienal não é mais um festival. É uma plataforma de caminhada coletiva.
Esta mudança de nome acompanha uma transformação de fundo. A Bienal Vodun Hwendo não se situará mais exclusivamente no quadro do entretenimento cultural. Torna-se uma plataforma curatorial transatlântica dedicada ao estudo das estéticas e narrativas vodun numa perspetiva descolonial.
Essa palavra — descolonial — merece ser levada a sério. Não é um slogan. É um método: olhar para a criação artística vodun não pelo prisma da etnologia ocidental do século XIX, mas pelo prisma das próprias comunidades. Compreender as formas, os gestos, as figuras sagradas, os objetos rituais, os sons e os têxteis vodun como sistemas estéticos autónomos — dotados da sua própria lógica, da sua própria história, do seu próprio futuro.
Ancorada em Ouidah desde 2022
A escolha de Ouidah como ancoragem não é acidental. Ouidah é o lugar por excelência onde o Vodun se mostrou, se fez ouvir e negociou com o mundo. Foi desta praia que partiram milhões de seres humanos — e é precisamente aqui que o Vodun sobreviveu, se transformou e viajou.
O Vodu haitiano, o Candomblé brasileiro, a Santeria cubana, o Shango de Trinidad — todas estas tradições religiosas e estéticas carregam a marca do que tomou forma em Ouidah e nos seus arredores, há três séculos. O Brasil é talvez o exemplo mais eloquente desta ligação direta: o Candomblé da Bahia, as festas do Bonfim, os terreiros de Salvador — tudo isto tem raízes que remontam a esta costa. Vodun Hwendo é o espaço institucional que reconhece este facto e dele retira as consequências curatoriais.
A bienal desdobra-se entre criação artística, saberes rituais e investigação, num diálogo permanente entre artistas, investigadores e comunidades Vodun à escala afro-atlântica. Este tríptico é fundador: nem puramente académico, nem puramente espetacular, nem puramente ritual — mas os três em simultâneo, em diálogo e em tensão criativa.
Desde a sua primeira edição em 2022, a bienal lançou as bases deste diálogo. A terceira edição dá um passo decisivo em frente.
2026: Totems AfriKaraïbes — A Metamorfose
O tema da terceira edição é Totems AfriKaraïbes. Inscreve-se numa reflexão mais ampla sobre a metamorfose — a das formas, dos corpos, das identidades, das memórias que atravessam o Atlântico e se transformam sem se perderem.
Os Totems são figuras de mediação: entre o mundo visível e o mundo invisível, entre os antepassados e os vivos, entre o local e o transatlântico. O totem vodun não é um ídolo. É uma interface. E é precisamente esta noção de interface — de passagem, de limiar, de transformação — que organiza a programação desta terceira edição.
As Caraíbas entram explicitamente no diálogo. O espaço afro-atlântico não é mais apenas Benim–Brasil. Alarga-se para incluir Haiti, Cuba, Martinica, Guadalupe, Trinidad — todas essas ilhas que carregam, na sua espiritualidade e nas suas artes, o eco das costas beninenses. Esta abertura caribenha é central: o tema AfriKaraïbes não é apenas geográfico, é também metodológico. Trata-se de reconhecer que as formas de resistência, de criação e de transmissão cultural nas Caraíbas partilham uma matriz vodun com as formas africanas — e que este parentesco estético é simultaneamente político, espiritual e criativo.
A plataforma Totems AfriKaraïbes é liderada sob a direção executiva de Noudeou Noëlie Houngnihin, que coordena este diálogo entre as margens africanas e caribenhas do mundo vodun.
De 12 a 16 de agosto de 2026 em Ouidah
A programação desta terceira edição entrelaça:
- Exposições — obras de artistas contemporâneos que trabalham na interseção das estéticas vodun e da criação atual, em diálogo com objetos rituais e formas ancestrais
- Performances — criações in situ que mobilizam o corpo, a voz, o transe e os gestos do Vodun como materiais artísticos
- Ateliers — espaços de transmissão e troca entre praticantes rituais, artistas e investigadores, abertos a públicos locais e internacionais
- Conversas — formatos de diálogo que reúnem vozes de África, das Caraíbas e da diáspora para pensar coletivamente as estéticas e memórias vodun
Este programa desdobra-se em Ouidah ao longo de cinco dias, em locais patrimoniais e contemporâneos que fazem parte do próprio assunto: uma cidade onde cada praça, cada árvore, cada caminho é potencialmente um espaço de memória vodun.
Michel Meyer: De Agolo a Sa Majesté des Mers et Océans
Michel Meyer não é desconhecido no mundo afro-atlântico. Em 1994, assinou a realização do videoclipe "Agolo" de Angélique Kidjo — uma canção que se tornou hino planetário da identidade africana, abrindo a Kidjo as portas dos maiores palcos mundiais. Esse clipe, filmado com energia visceral e imagens profundamente enraizadas, já portava a assinatura de um cineasta que compreende que a cultura vodun não é um cenário. É uma linguagem.
Trinta anos depois, Meyer regressa a essa mesma fonte com um projeto de uma dimensão muito maior: a longa-metragem documental Sa Majesté des Mers et Océans (90 minutos, 4K), coproduzida pela Laboratorio Arts Contemporains (Benim) e pela Fame Production (França).
No coração do filme: Dada Daagbo Hounon Houna II, chefe espiritual supremo do Vodun Hwendo, filho e sucessor do falecido Dada Daagbo Agbessi Houna I — aquele que, em 1988, abria na Casa do Benim em Salvador da Bahia uma nova página de diplomacia espiritual afro-atlântica, ao lado de Pierre Verger e Gilberto Gil. Esta linhagem sagrada é o fio condutor do filme.
De 2019 a 2022, uma equipa franco-beninense seguiu Dada Daagbo Hounon Houna II, ao lado de mulheres, mestres de culto, babalawo e artistas — portadores de uma estética viva do cuidado, do sagrado e da transmissão. O resultado é uma imersão nos bastidores de um património cósmico, onde a espiritualidade se torna linguagem artística e os rituais, arquivos vivos.
Este documentário participa de uma reconfiguração das narrativas: restituir a palavra aos herdeiros, religar os povos do Atlântico negro e legitimar o Vodun como fonte fundamental da criação contemporânea.
Avant-première brasileira — Salvador da Bahia & Cachoeira
Em agosto de 2025, o filme realizou a sua avant-première brasileira no âmbito do dispositivo OCUPA – Casa do Benim 2025, em parceria com a UFBA (Universidade Federal da Bahia):
- 📍 Salvador da Bahia — 12 de agosto de 2025
- 📍 Cachoeira — 20 de agosto de 2025
Não é por acaso. O Brasil, e Salvador da Bahia em particular, continua a ser uma terra de ressonância para a cosmogonia vodun — espiritualidade dos quatro elementos (terra, água, fogo, ar) que estrutura as relações entre os vivos, os antepassados e os orixás. Foi aqui, na Casa do Benim, que em 1988 se abriu essa nova página de diplomacia espiritual afro-atlântica. A projeção do filme nesses mesmos lugares, trinta e sete anos depois, fecha um círculo.
Erol Josué: Haiti e o caminho de volta
Erol Josué é uma das figuras mais importantes na transmissão das culturas afro-atlânticas. Cantor, dançarino, coreógrafo, ator e sacerdote vodou haitiano (houngan), é também Diretor Geral do Bureau Nacional de Etnologia do Haiti. O seu trabalho artístico — dois álbuns aclamados, numerosas performances cénicas internacionais — é inseparável da sua prática espiritual. Para Josué, o Vodu não é um objeto de estudo: é uma forma de estar no mundo.
Já veio a Ouidah, à Porta do Não-Retorno, para honrar os antepassados e apelar à reparação simbólica. A sua presença em Vodun Hwendo encarna precisamente o que a bienal quer ser: um espaço onde o ritual e a criação não são duas coisas separadas, mas uma única e mesma prática de presença no mundo.
Josué representa também a dimensão haitiana deste diálogo afro-atlântico — uma dimensão central no tema Totems AfriKaraïbes, sendo o Haiti um dos países onde o Vodu melhor se preservou e mais livremente se afirmou como religião nacional e patrimônio vivo. No Haiti, os lwa — os espíritos vodou — não são divindades distantes. São presentes, exigentes, relacionais. Pedem que se mostre. O trabalho de Josué é precisamente sobre isso: mostrar-se.
Para os visitantes provenientes do Brasil, esta dimensão haitiana ressoa de forma particular. O Candomblé, o Xangô, a Umbanda — todas estas tradições partilham com o Vodu haitiano uma mesma origem beninense, uma mesma memória do Daomé, uma mesma consciência de que os espíritos não desapareceram com a travessia do oceano. Vieram também.
Porque isto é importante para Ouidah
A Bienal Vodun Hwendo inscreve-se na transformação mais ampla de Ouidah como capital cultural. O plano Ouidah 2027 prevê uma ascensão do turismo memorial e cultural, e a bienal é um dos seus pivôs artísticos.
Completa o calendário dos grandes eventos: os Vodun Days em janeiro, a Bienal em agosto — dois momentos de projeção internacional, duas temporalidades diferentes, dois públicos que se sobrepõem e se alargam. Onde os Vodun Days são essencialmente uma celebração espiritual e popular, Vodun Hwendo é mais curatorial e orientado para a investigação. Juntos, oferecem o espetro completo do que Ouidah tem a dizer ao mundo.
Vodun Hwendo, ao tornar-se uma plataforma curatorial com vocação descolonial, posiciona Ouidah não apenas como lugar de memória, mas como lugar de produção de saberes sobre as estéticas afro-atlânticas. Uma cidade que não se contenta em ser visitada, mas que pensa, cria e projeta ideias para fora.
Para artistas, investigadores e viajantes da diáspora — especialmente os provenientes do Brasil, de Cabo Verde, de Angola, ou das Caraíbas — esta bienal é um convite. Não apenas para vir ver. Mas para vir participar em algo que está a ser construído.
O caminho está aberto. O nome diz-o: Vodun Hwendo. O caminho do Vodun.
Descubra também como os Vodun Days transformaram Ouidah numa capital espiritual internacional cada mês de janeiro — e o que o MIME está a preparar para 2027.
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Além das palavras, Ouidah é uma experiência física. Contate-nos para organizar uma imersão privada nos bastidores de nossas crônicas.


