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19 · diaspora

Zomachi, o memorial do arrependimento

Na Rota dos Escravos, um memorial nascido da sociedade civil, palco da marcha do arrependimento de 1998 até a demolição em 2024

In this pillar14 min
CHAVES

Pontos Principais

  • Zomachi quer dizer em fon "o lugar onde a luz nunca se apaga". Era um memorial, não um bairro.
  • O memorial foi criado pelo professor Honorat Aguessy e pelo seu instituto, o IDEE, com a sociedade civil de Ouidah e recursos próprios.
  • Em 18 de janeiro de 1998, notáveis de Ouidah se ajoelharam ali para pedir perdão em nome dos seus antepassados: foi a primeira marcha do arrependimento, repetida depois todo terceiro domingo de janeiro.
  • O memorial foi demolido em 2024 por decisão das autoridades, dentro da reforma dos lugares de memória de Ouidah.
  • A herança afro-brasileira de Ouidah está sobretudo nos bairros Brésil, Zomaï e Docomè, e na Casa do Brasil.

Na Rota dos Escravos de Ouidah, entre a cidade e a praia, havia um lugar cujo nome dizia tudo: Zomachi, "o lugar onde a luz nunca se apaga". Não era um bairro nem um monumento oficial. Era um memorial nascido da sociedade civil, levado adiante por um homem, e que durante mais de vinte e cinco anos foi palco de uma marcha do arrependimento.

Em 2024, ele foi demolido.

Este pilar conta o que era Zomachi, por que importava, o que dizia sobre um debate que o Benim abriu nos anos 1990, e onde procurar hoje a herança afro-brasileira de Ouidah, com a qual ele é muitas vezes confundido.

Um nome, uma promessa

Em fon, o nome Zomachi se traduz como "o lugar onde a luz nunca se apaga", ou "o fogo que não se apaga". Zo é o fogo, a luz. Zomachi é a luz que se mantém acesa: a da memória.

O nome responde a outro lugar próximo na rota, Zomaï, "onde o fogo não vai", "onde a luz não deve entrar". Segundo a tradição transmitida pelos guias, era uma casa escura onde os cativos ficavam presos antes da partida. Os dois nomes se respondem. Um fala da escuridão e da proibição, o outro de uma luz que se mantém acesa.

Há ainda outra leitura de Zomaï. Pesquisadores da Universidade de Liège contam que o bairro Zomaï, a oeste do centro, servia de depósito para as armas e a pólvora recebidas em troca dos cativos vendidos aos europeus. O nome, "o fogo não vai lá", viria então de uma precaução bem concreta: não se chega com fogo perto de um paiol de pólvora. As duas leituras não se excluem necessariamente, e o nosso pilar sobre a casa Zomaï apresenta as duas.

Esse jogo de nomes não é por acaso. Os fundadores de Zomachi quiseram responder, na mesma estrada e na mesma língua, à memória do cativeiro.

Honorat Aguessy e o IDEE

O memorial Zomachi foi criado pelo professor Honorat Aguessy, acadêmico beninense, junto com a sociedade civil de Ouidah. Ele o financiou com empenho pessoal e recursos próprios, por meio do seu instituto, o Instituto de Desenvolvimento e Intercâmbios Endógenos (IDEE).

Nascido em 1934 em Ouidah, Honorat Aguessy estudou filosofia na Sorbonne depois de terminar o ensino médio em Porto-Novo, em 1955. Foi pesquisador do CNRS, em Paris, depois dirigiu a pesquisa científica e técnica do Benim e, mais tarde, um programa da UNESCO dedicado ao ensino superior na África. Na Universidade de Abomey-Calavi, fundou o departamento de sociologia, e por isso é muitas vezes chamado de "pai da sociologia" beninense.

Zomachi era, portanto, obra de um intelectual reconhecido, que voltou à sua cidade natal para fazer um trabalho de memória. Honorat Aguessy morreu em 15 de setembro de 2022, em Cotonou. Foi enterrado em 22 de setembro em Ouidah, ao lado da esposa, Béatrice Ayhi Aguessy.

Os pesquisadores da Universidade de Liège que estudaram os lugares de memória de Ouidah descrevem a praça Zomachi como uma iniciativa da sociedade civil da cidade, símbolo da luz. Era isso que a distinguia das outras etapas da Rota dos Escravos, criadas com o Estado e a UNESCO em meados dos anos 1990.

O que o memorial abrigava

Zomachi não era só um monumento. Segundo o IDEE, o lugar tinha baixos-relevos externos e internos, um panteão da reconciliação e uma escultura do artista F. M. Agbenonci.

Em volta do memorial, o instituto tinha criado um conjunto maior, a Escale du Retour ("Escala do Retorno"), pensada como etapa de retorno e reconciliação para os visitantes da diáspora. Tinha cerca de cinquenta quartos, um museu, uma sala de conferências, um restaurante e uma galeria. Outro elemento, a Árvore dos Três C, fazia parte do complexo.

O memorial também olhava para quem voltou. A Wikipédia indica que ele era dedicado em especial aos retornados, os africanos e descendentes de africanos libertos no Brasil que voltaram para a costa do golfo do Benim no século XIX, sobretudo depois da revolta dos Malês, em 1835, em Salvador. Depois da revolta, as autoridades baianas deportaram centenas de africanos livres, e muitos outros preferiram partir. Em Ouidah, junto com os descendentes de comerciantes brasileiros, eles formaram a comunidade agudá. A deles é uma das raras histórias do tráfico que vai do mar para a terra, e era esse retorno que Zomachi queria saudar.

A Wikipédia acrescenta que o memorial homenageava as vítimas da escravização pelos traficantes e pelos seus intermediários locais, num espírito de memória, arrependimento e perdão. Era dedicado também à reconciliação entre os descendentes das famílias que praticaram o tráfico e os descendentes das vítimas.

18 de janeiro de 1998: a primeira marcha do arrependimento

A data fundadora de Zomachi é 18 de janeiro de 1998. Naquele dia, segundo o IDEE, notáveis de Ouidah se ajoelharam em Zomachi para pedir perdão em nome dos seus antepassados, pela colaboração de alguns deles com os traficantes.

O gesto foi forte. Não veio de um governo estrangeiro nem de uma instituição internacional, mas das próprias famílias de Ouidah, na cidade onde o tráfico foi mais intenso.

Depois disso, uma marcha do dever de memória e do arrependimento passou a acontecer todo ano, no terceiro domingo de janeiro, conduzida pelo professor Aguessy e pela sociedade civil. O IDEE documentou muitas edições, de 2011 a 2023. Algumas marchas vinham acompanhadas de concursos escolares, para envolver os estudantes da cidade nesse trabalho de memória. Em 2017, Honorat Aguessy escreveu um poema para a marcha.

A data não era por acaso. Realizada poucos dias depois da festa nacional do vodun, então celebrada em 10 de janeiro, a marcha prolongava esses dias de memória acrescentando uma pergunta que a festa em si não fazia.

O arrependimento, um debate nacional dos anos 1990

Zomachi faz parte de um momento especial da história do Benim. Nos anos 1990, depois do fim do regime marxista-leninista e da volta da democracia, a memória do tráfico virou tema de debate público. O pesquisador beninense Nassirou Bako-Arifari analisou as suas etapas num artigo publicado em 2000 no Journal des Africanistes.

Três acontecimentos marcaram a década:

  • De 8 a 18 de fevereiro de 1993, o festival Ouidah 92, primeiro festival mundial das artes e culturas vodun, reuniu em Ouidah praticantes do Benim, do Haiti, de Cuba, do Brasil e dos Estados Unidos, com o tema "Reencontros Américas-Áfricas".
  • Em setembro de 1994, a UNESCO lançou em Ouidah o projeto "A Rota do Escravo", que fez da cidade um dos grandes lugares de memória do tráfico atlântico.
  • Em 2 e 3 de dezembro de 1999, Cotonou recebeu uma conferência internacional pela reconciliação e pelo desenvolvimento, muitas vezes chamada de "cúpula do perdão", por iniciativa do presidente Mathieu Kérékou.

No mesmo ano de 1999, Kérékou surpreendeu ao pedir desculpas aos afro-americanos, numa igreja de Baltimore, pela participação africana no tráfico. Em 2000, numa nova viagem aos Estados Unidos, declarou: "Imploramos o perdão e a reconciliação" e "O tráfico é uma vergonha, e nos arrependemos dele".

O debate é delicado. Falar da responsabilidade africana no tráfico é lembrar que reinos, entre eles o Daomé, e comerciantes locais venderam cativos aos europeus. É também mexer com as famílias de hoje, algumas descendentes desses comerciantes, outras de cativos que ficaram na terra. Bako-Arifari mostra como a pergunta sobre "quem são os escravos" na sociedade beninense contemporânea continua sensível.

Quem vem do Brasil conhece essa dificuldade de outro jeito: também aqui, falar de quem se beneficiou da escravidão e de quem a sofreu continua sendo um tema difícil nas famílias e no espaço público.

Zomachi foi um dos raros lugares onde essa pergunta era feita publicamente, no terreno, por moradores de Ouidah. Era isso que o tornava único.

Outros gestos de perdão na África

O Benim não é o único país africano onde a questão do perdão foi colocada. Algumas referências reunidas pela Wikipédia:

  • Uganda, 1998: o presidente Yoweri Museveni se recusou a pedir desculpas ao presidente americano Bill Clinton, dizendo que eram os chefes africanos que guerreavam entre si e vendiam a própria gente. Ele mesmo apresentou desculpas oficiais em 2023.
  • Gana, 2006-2007: o país lançou o "Joseph Project" para se reaproximar da diáspora. Em 2007, em Londres, o presidente John Kufuor rejeitou a ideia de uma responsabilidade só europeia e chamou o tráfico de atividade "vergonhosa".
  • Nigéria: em 2009, um coletivo pediu que os chefes tradicionais se desculpassem, e o conselho de anciãos de Aro recusou. Em 2018, o Oluwo de Iwo pediu desculpas pela participação das famílias reais tradicionais. Em Badagry, descendentes do traficante Seriki Abass também pediram desculpas.
  • Camarões, 2013: um chefe do clã Oku pediu desculpas oficiais a um descendente de cativos vendidos pelo seu clã.
  • Gana, 2022: o rei tradicional de Asebu expressou profundo pesar à diáspora africana.

Nessa lista, a marcha de Zomachi de 1998 tem uma particularidade: não veio de um chefe de Estado nem de um rei, mas de notáveis e moradores de uma cidade, reunidos por um acadêmico.

Um memorial singular

A maioria dos memoriais do tráfico fala das vítimas e dos europeus. É o caso de muitos monumentos em Gorée, em Cape Coast e ao longo da própria Rota dos Escravos. Zomachi acrescentava um terceiro personagem: os intermediários africanos.

Essa escolha pode ser lida de várias formas. Pode-se ver nela um gesto de verdade raro, que reconhece toda a cadeia do tráfico, e um passo em direção aos descendentes dos deportados. Também se pode temer que insistir no arrependimento africano dilua a responsabilidade das potências europeias que organizaram e financiaram o tráfico. Ou ainda notar que se tratava de uma iniciativa privada, levada por um instituto e uma personalidade, mais do que de um lugar de memória escolhido pela cidade inteira.

Essas leituras não se excluem. Elas mostram que Zomachi não era cenário, mas lugar de debate.

A demolição de 2024

Em 2024, o memorial Zomachi foi demolido por decisão das autoridades públicas. Segundo o IDEE, a demolição aconteceu já em janeiro de 2024, pouco mais de um ano depois da morte do seu fundador. Os motivos oficiais foram pouco explicados, e a demolição provocou críticas nos meios culturais.

Ela faz parte de uma ampla reforma dos lugares de memória de Ouidah, conduzida desde 2021 pela agência nacional de patrimônio e turismo do Benim (ANPT). Outros monumentos desapareceram no mesmo período: o monumento "Cité historique de Ouidah", no cruzamento de Vassého, construído em 2006, foi derrubado em 2025. A Porta do Não Retorno foi totalmente reconstruída no fim de 2025. O Forte português está em obras para abrigar o Museu Internacional da Memória e da Escravidão (MIME).

O programa tem defensores e críticos. Para uns, dá a Ouidah lugares de memória à altura da sua história e do número crescente de visitantes. Para outros, apaga iniciativas locais, algumas antigas, em favor de uma narrativa mais centralizada. O desaparecimento de Zomachi é um dos casos mais discutidos.

Para o visitante, a conclusão é simples: Zomachi não pode mais ser visitado. Mas o que ele representava, a memória do tráfico e a questão do arrependimento, continua no centro da Rota dos Escravos.

Zomachi não é o bairro afro-brasileiro

É comum ler, inclusive em sites de viagem, que Zomachi seria o bairro dos agudás, as famílias afro-brasileiras de Ouidah. É uma confusão.

Os agudás descendem em parte de africanos libertos que voltaram do Brasil a partir da década de 1830, muitos deles da Bahia, e em parte de comerciantes portugueses e brasileiros instalados na costa. Segundo o estudo patrimonial publicado na revista In Situ, suas famílias vivem sobretudo nos bairros Brésil, Zomaï e Docomè. Os bairros Maro e Abata receberam nagôs (iorubás) e libertos que voltaram do Brasil depois de 1830.

A confusão vem provavelmente da geografia: Zomachi ficava perto da casa Zomaï, e Zomaï é um dos bairros agudás. A Wikipédia também diz que o memorial Zomachi era dedicado em parte aos retornados. Mas um memorial dedicado aos retornados não é um bairro de retornados.

Para conhecer essa herança, algumas referências:

  • A Casa do Brasil (Maison du Brésil), no bairro Zomaï: uma casa em estilo afro-brasileiro construída em 1930, sobrado de um andar. Serviu de prédio administrativo e residência, depois de tesouro público na época colonial. Reabilitada a partir de 2016 com financiamento do Banco Mundial, sob a condução da ANPT, abriga escritórios e exposições temporárias e funciona como casa de memória da comunidade afro-brasileira. É a contraparte da Casa do Benin, no Pelourinho, em Salvador. Inaugurada em 1988, num prédio reformado segundo projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, e reaberta em dezembro de 2014 depois de obras, a Casa do Benin guarda um importante acervo afro-brasileiro e conta os laços entre a Bahia e o Benim. Visitar as duas casas, uma de cada lado do Atlântico, é uma boa maneira de sentir a ida e a volta dessa história.
  • A Villa Ajavon, de 1922, que abriga o museu da Fundação Zinsou, atrás da basílica.
  • Os sobrados das famílias agudás, com varandas, fachadas coloridas e sobrenomes portugueses: de Souza, da Silva, d'Almeida, Paraíso…

Nossos pilares sobre a comunidade agudá e sobre a herança brasileira contam essa história em detalhe.

O que resta de Zomachi

Resta um nome, fotos, os arquivos do IDEE, a lembrança de quem marchou. E uma pergunta que o memorial fazia do seu jeito: como uma cidade que viu partir mais de um milhão de cativos se lembra da sua própria parte no tráfico?

A nova paisagem de memória de Ouidah talvez responda de outra forma. O futuro museu do Forte português também terá de contar o papel do Daomé e dos comerciantes da costa. Enquanto isso, percorrer a Rota dos Escravos a pé, da praça Chacha até a praia, continua sendo a melhor maneira de fazer essa pergunta no lugar.

Se quiser conversar sobre isso com moradores, pergunte ao seu guia se ele conheceu Zomachi e a marcha do arrependimento. Muita gente em Ouidah tem opinião sobre o assunto, e ouvir vale mais que qualquer placa.

Lembrar de Zomachi hoje

Mesmo sem o memorial, há algumas formas de se aproximar do que Zomachi foi:

  • Percorrer a Rota dos Escravos e parar diante da casa Zomaï e do memorial de Zoungbodji, as duas etapas mais próximas do antigo local.
  • Consultar o site do IDEE, que documentou as marchas do arrependimento de 2011 a 2023, com fotos, textos e o poema escrito por Honorat Aguessy em 2017.
  • Informar-se sobre a marcha do terceiro domingo de janeiro. Não encontramos informação confiável sobre a continuidade da marcha depois da demolição do memorial e da morte do seu fundador. O IDEE e os guias de Ouidah são os mais indicados para responder.
  • Visitar a Casa do Brasil no bairro Zomaï, para continuar a história dos retornados que Zomachi homenageava.

Percorrer a Rota dos Escravos com um guia local →

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Zomachi, o memorial do arrependimento