Pontos Principais
- A Fundação Zinsou foi criada em junho de 2005 em Cotonou por Marie-Cécile Zinsou, com o apoio da família.
- O museu de Ouidah, aberto em 11 de novembro de 2013 na Villa Ajavon, é apresentado como o primeiro museu de arte contemporânea da África subsaariana fora da África do Sul.
- A Villa Ajavon foi construída em 1922 por um rico comerciante vindo do Togo, em estilo afro-brasileiro.
- A entrada é gratuita: em 2015, a fundação informava que 80% dos seus visitantes tinham menos de 20 anos.
- O acervo reúne artistas beninenses (Cyprien Tokoudagba, Romuald Hazoumè, Gérard Quenum, Dominique Zinkpè) e de todo o continente.
Atrás da basílica de Ouidah, uma casa baixa de fachada clara, com muitas janelas e um frontão recortado. Entra-se por uma porta de madeira onde se entrelaçam duas iniciais, V e A. Lá dentro, nada de bilheteria, nada de catraca. Fotografias, esculturas, instalações, pinturas. E muitas vezes, grupos de crianças.
É o museu da Fundação Zinsou, instalado desde 2013 na Villa Ajavon. Numa cidade conhecida no mundo inteiro pela memória do tráfico e pelo vodun, é um lugar que olha para a África de hoje, através dos seus artistas.
Para quem vem do Brasil, a casa tem ainda um charme a mais: a sua fachada lembra as de Salvador.
Este pilar conta a história da fundação e da casa, o que se pode ver no museu e por que a entrada gratuita está no coração do projeto.
Um museu de arte contemporânea em Ouidah
O museu da Fundação Zinsou abriu em 11 de novembro de 2013. A Wikipédia o apresenta como o primeiro museu de arte contemporânea da África subsaariana, fora da África do Sul. É, de todo modo, o primeiro do gênero no Benim.
Há fotografia, escultura, instalação, vídeo, pintura, desenho e litografia. As obras tratam muitas vezes da memória, da tradição e da forma como os artistas de hoje as reescrevem.
A entrada é gratuita. É uma escolha fundadora, não um detalhe.
A fundação, de Cotonou a Ouidah
A Fundação Zinsou foi criada em junho de 2005 em Cotonou por Marie-Cécile Zinsou, com o apoio da família, em especial do pai, o economista Lionel Zinsou, depois primeiro-ministro do Benim, e do tio-avô Émile Derlin Zinsou, ex-presidente do Daomé.
A ambição era clara: fazer a criação artística do continente chegar ao maior número de pessoas. A fundação não vende as obras que expõe, como faria uma galeria; ela constitui um acervo, organiza exposições e troca com outras instituições.
As primeiras exposições, em junho de 2005, apresentaram o artista beninense Romuald Hazoumè e o fotógrafo Jean-Dominique Burton. Com os anos, a fundação montou todo um programa educativo:
- 2005: criação das oficinas infantis "Les Petits Pinceaux" (Os Pequenos Pincéis);
- 2009: abertura da minibiblioteca de Gbegamey, em Cotonou, e lançamento de um ônibus cultural;
- 2011 e 2012: novas minibibliotecas em Akpakpa, Fidjrossè e Agla;
- 2015: lançamento de "Wakpon, le musée fait le mur", um aplicativo;
- 2021: abertura do Cotonou LAB.
Segundo a Wikipédia, em oito anos a fundação reuniu cerca de mil obras, organizou 24 exposições e publicou 17 livros de arte. Em 2015, tinha 63 funcionários e um orçamento anual de 800 mil a um milhão de euros, financiado por mecenato privado.
Os Zinsou, uma família beninense
O sobrenome Zinsou é bem conhecido no Benim, e a sua história ajuda a entender a fundação.
Émile Derlin Zinsou, tio-avô da fundadora, foi presidente da República do Daomé de 1968 a 1969, numa época de instabilidade política marcada por golpes de Estado. Continuou sendo uma figura da vida pública beninense por décadas, até morrer em 2016, aos 98 anos.
Lionel Zinsou, pai da fundadora, nasceu em Paris em 1954. Economista e banqueiro na França, foi nomeado primeiro-ministro do Benim em junho de 2015. Em 2016, foi candidato à presidência; Patrice Talon venceu no segundo turno.
A fundação nasceu, portanto, numa família ao mesmo tempo beninense e francesa, no cruzamento da política, da economia e da cultura. Isso também ajudou a mobilizar um mecenato privado importante. O projeto, porém, continuou centrado na arte e no público.
Marie-Cécile Zinsou
Marie-Cécile Zinsou nasceu em Paris em 1982. Estudou história da arte na Universidade Americana de Paris. Segundo a Wikipédia, o projeto do museu de Ouidah nasceu de uma promessa feita em 2003 a estudantes de arte beninenses: mostrar a eles as obras contemporâneas do próprio continente, que só conheciam por reproduções.
O seu trabalho foi reconhecido várias vezes. Em 2014, recebeu o título de cavaleira da Ordem das Artes e das Letras, e a Fundação Zinsou ganhou uma bolsa do Praemium Imperiale da Associação de Arte do Japão, destinada a jovens artistas e instituições. Em 2020, fez parte do júri que escolheu Kapwani Kiwanga para o prêmio Marcel Duchamp. Em outubro de 2021, foi nomeada presidente do conselho de administração da Villa Médici, a Academia da França em Roma.
Por que Ouidah?
Depois de oito anos em Cotonou, a fundação escolheu Ouidah para o seu museu. A escolha não foi por acaso.
Ouidah é a cidade da memória do tráfico, da Rota dos Escravos, da Porta do Não Retorno. É também uma cidade de vodun, com o Templo dos Pítons e a floresta sagrada de Kpassè. Instalar ali um museu de arte contemporânea é afirmar que a história da cidade não se resume ao passado, e que os seus moradores, sobretudo os jovens, têm direito à arte do seu tempo.
A escolha também foi prática. Ouidah fica a uns 45 quilômetros de Cotonou, a capital econômica, por estrada asfaltada. As escolas de Cotonou, de Ouidah e das cidades vizinhas podem ir e voltar no mesmo dia, e os visitantes estrangeiros, que quase todos passam por Ouidah por causa da Rota dos Escravos, encontram o museu no caminho. O museu fala assim a dois públicos ao mesmo tempo: os jovens beninenses e os viajantes do mundo inteiro.
A exposição inaugural de 2013 reuniu artistas africanos e internacionais, entre eles Romuald Hazoumè, o fotógrafo malinês Malick Sidibé e o fotógrafo camaronês Samuel Fosso.
A Villa Ajavon
O museu ocupa a Villa Ajavon, construída em 1922 para um rico comerciante chamado Ajavon, vindo do Togo, que se instalou em Ouidah. É uma casa térrea na beira da rua, em estilo afro-brasileiro misturado com influências coloniais.
Segundo a fundação, a fachada principal é simétrica, com muitas aberturas, e coroada por um frontão polilobado. As molduras de madeira das portas trazem as iniciais entrelaçadas V e A, e as pilastras são decoradas com motivos circulares. O conjunto, diz a fundação, ecoa as residências de Salvador da Bahia. Quem já andou pelo Pelourinho ou pelas ruas de Cachoeira vai reconhecer o parentesco.
A casa conta à sua maneira outro capítulo da história de Ouidah. Depois do fim do tráfico, no século XIX, a cidade virou um grande centro de exportação de azeite de dendê. Comerciantes prósperos, muitos vindos de outras cidades da costa, e a comunidade afro-brasileira dos agudás construíram casas que emprestavam o vocabulário arquitetônico do Brasil. Nosso pilar sobre a herança brasileira conta isso em detalhe.
A casa foi reformada para receber o museu, preservando os seus elementos originais.
O acervo
O acervo da fundação reúne artistas beninenses de todas as gerações e artistas de todo o continente.
Entre os artistas beninenses do acervo:
- Cyprien Tokoudagba (1939-2012), pintor e escultor de Abomé, autor da maioria das obras da Rota dos Escravos;
- Romuald Hazoumè, conhecido pelas máscaras feitas de galões de gasolina de plástico;
- Gérard Quenum, Dominique Zinkpè, Kifouli Dossou, Emo de Medeiros.
Entre os artistas de outros países: os fotógrafos Malick Sidibé (Mali) e Samuel Fosso (Camarões), o artista marfinense Frédéric Bruly Bouabré, o pintor congolês Chéri Samba, o nome sul-africano Zanele Muholi, o fotógrafo congolês Sammy Baloji, a artista tunisiana Aïcha Snoussi e o artista plástico Bruce Clarke.
As exposições mudam com frequência. Segundo a Wikipédia, o museu apresentou, entre outros, o artista malgaxe Joël Andrianomearisoa, em 2017, e o fotógrafo beninense Ishola Akpo, em 2020.
Sete artistas para conhecer antes da visita
As exposições mudam, mas alguns nomes voltam sempre ao acervo. Conhecer um pouco deles antes de entrar enriquece a visita.
Romuald Hazoumè, as máscaras-galão
Nascido em 1962 em Porto-Novo, Romuald Hazoumè começou em meados dos anos 1980 uma série de máscaras feitas de galões de gasolina de plástico, os mesmos usados em todo o Benim para transportar o combustível contrabandeado da Nigéria. Cortados, furados, enfeitados, eles ganham a cara de máscaras tradicionais. É engraçado, bonito e político ao mesmo tempo.
A sua instalação La Bouche du Roi, nome de um lugar da costa beninense, reproduz a planta de um navio negreiro com centenas de galões dispostos como cativos. Foi comprada pelo British Museum em 2007, no bicentenário da abolição do tráfico britânico. No mesmo ano, Hazoumè recebeu o prêmio Arnold Bode na documenta 12, em Kassel. Foi com obras dele que a Fundação Zinsou abriu as suas primeiras exposições, em 2005.
Cyprien Tokoudagba, o pintor dos palácios
Cyprien Tokoudagba (1939-2012), de Abomé, passou anos restaurando os baixos-relevos dos palácios reais do Daomé. A sua obra, de figuras estilizadas e cores fortes, bebe da iconografia real e vodun. Ficou conhecido internacionalmente na exposição Magiciens de la Terre, em Paris, em 1989. O seu estilo acompanha toda a Rota dos Escravos, onde fez a maior parte das obras.
Malick Sidibé, o olhar de Bamako
Nascido em 1935 no Mali, Malick Sidibé fotografou a juventude de Bamako dos anos 1950 aos 1970: bailes, festas, poses de estúdio, calças boca de sino e discos de vinil. Em 2007, tornou-se o primeiro fotógrafo e o primeiro africano a receber o Leão de Ouro pelo conjunto da obra na Bienal de Veneza. Morreu em 2016.
Samuel Fosso, o autorretrato como história
Nascido em 1962 em Kumba, nos Camarões, Samuel Fosso abriu o seu próprio estúdio fotográfico em Bangui, na República Centro-Africana, ainda adolescente. Usando as últimas poses dos filmes, fazia autorretratos em que se encenava. Transformou isso numa obra de vida inteira: encarnando personagens e figuras da história africana, questiona a identidade, o poder e a memória.
Frédéric Bruly Bouabré, o alfabeto de um visionário
Em 11 de março de 1948, o marfinense Frédéric Bruly Bouabré (1923-2014) teve uma visão que orientou toda a sua vida. Inventou um alfabeto para a língua bété, feito de centenas de pequenos pictogramas desenhados em cartões, e dedicou milhares de desenhos a "conhecer o mundo". Os seus pequenos cartões a caneta e lápis de cor estão hoje nos grandes museus.
Chéri Samba, a pintura que fala
Nascido em 1956 na República Democrática do Congo, Chéri Samba é uma das grandes figuras da "pintura popular" de Kinshasa. As suas telas de cores vivas, muitas vezes com textos, comentam com humor a vida urbana, a política, o dinheiro, a aids ou o lugar do artista africano no mercado mundial. A gente lê os seus quadros tanto quanto os olha.
Zanele Muholi, o ativismo pela imagem
Nome central da fotografia sul-africana, Zanele Muholi se apresenta como "ativista visual". O seu trabalho documenta e celebra a vida das pessoas negras LGBTQIA+ na África do Sul. A série de autorretratos Somnyama Ngonyama ("Salve, leoa negra") tornou o trabalho de Muholi conhecido no mundo inteiro.
Ver esses artistas em Ouidah, numa casa de 1922, tem um sentido especial. Muitos deles falam, cada um à sua maneira, de memória, identidade e poder. São as mesmas perguntas que a cidade faz.
Cosmogonies: o acervo em viagem
O acervo Zinsou não fica só em Ouidah. Ele viaja.
No verão europeu de 2021, o MO.CO. Hôtel des collections, em Montpellier, na França, apresentou a exposição "Cosmogonies. Zinsou, uma coleção africana", até 10 de outubro de 2021. Ela reunia quase 110 obras de 37 artistas de várias gerações, entre eles Frédéric Bruly Bouabré, Cyprien Tokoudagba, Malick Sidibé, Chéri Samba, Zanele Muholi, Ishola Akpo, Sammy Baloji e Aïcha Snoussi.
A exposição mostrava que um acervo formado na África, por uma instituição africana, podia circular em direção aos museus europeus, e não o contrário. No contexto do debate sobre as restituições, essa inversão tinha peso.
A entrada gratuita, uma filosofia
Por que a entrada é gratuita? Porque a fundação quer atingir primeiro os moradores, e em especial os jovens, para quem um ingresso, mesmo barato, seria um obstáculo.
A aposta deu certo. Em 2015, segundo a Wikipédia, 80% dos visitantes da fundação tinham menos de 20 anos. Os grupos escolares, as oficinas infantis e as minibibliotecas fazem parte do mesmo projeto: tornar a arte algo familiar, e não um luxo reservado a uma elite ou aos turistas.
Para o visitante estrangeiro, isso muda a experiência. É bem provável que você divida as salas com estudantes de Ouidah, olhando as mesmas obras que você, com as suas próprias perguntas.
O museu e o debate sobre as restituições
O museu de Ouidah abriu num momento em que a África reivindicava cada vez mais alto a volta do seu patrimônio.
Em 1892, durante a conquista do Daomé, as tropas do general Alfred Dodds saquearam os palácios reais de Abomé. Entre os objetos levados para a França, 26 tesouros reais ficaram guardados no museu do quai Branly, em Paris. A restituição foi assinada no Palácio do Eliseu em 9 de novembro de 2021 pelos presidentes Emmanuel Macron e Patrice Talon.
No Benim, as 26 obras foram apresentadas no palácio da Marina, a sede da presidência em Cotonou, na exposição "Arte do Benim de ontem e de hoje: da restituição à revelação", a partir de fevereiro de 2022, em mais de 2.000 m², ao lado de obras de artistas beninenses contemporâneos.
Esse diálogo entre objetos reais e arte contemporânea, a Fundação Zinsou já praticava havia anos. Marie-Cécile Zinsou também foi uma das vozes do debate público sobre a presença da arte africana na África e o acesso do público africano ao próprio patrimônio.
Ouidah, uma cidade de artistas
O museu da Fundação Zinsou não é o único lugar de arte de Ouidah. A cidade é também, ao ar livre, uma galeria da arte beninense dos últimos trinta anos:
- mais de 27 obras, sobretudo de Cyprien Tokoudagba, acompanham a Rota dos Escravos;
- a floresta sagrada de Kpassè abriga esculturas de voduns;
- a Porta do Não Retorno, reconstruída em 2025, tem mais de 200 esculturas de Fortuné Bandeira.
Visitar o museu depois desses lugares permite ver como os artistas contemporâneos dialogam com a mesma história, mas com outras formas: fotografia, instalação, vídeo.
Visitar o museu
- Endereço: Villa Ajavon, atrás da Basílica da Imaculada Conceição, no centro de Ouidah.
- Entrada: gratuita.
- No local: mediadores, Wi-Fi, loja onde algumas obras estão à venda, banheiros. Fotografar é permitido.
- Bom saber: não há estacionamento próprio. Confira os horários e a exposição em cartaz no site da fundação antes de ir.
- Duração: conte cerca de uma hora.
O museu se combina facilmente com os outros lugares do centro: o Templo dos Pítons e a basílica ficam a poucos minutos a pé, assim como a Rota dos Escravos e o Forte português. Depois de uma manhã dedicada à memória do tráfico, a casa oferece outro olhar, voltado para a África de hoje.
Um bom ritmo para uma primeira visita é começar cedo pela Rota dos Escravos, enquanto ainda está fresco, e voltar ao museu na hora mais quente do dia. As salas da casa são sombreadas, e a mudança de clima, do memorial para a arte contemporânea, dá tempo para digerir o que se viu de manhã. De Cotonou, onde fica o aeroporto internacional, conte cerca de uma hora de estrada até Ouidah, de táxi, de carro com motorista ou de táxi coletivo.
Para completar o roteiro afro-brasileiro, dá para seguir até a Casa do Brasil, no bairro Zomaï, e pelas ruas das famílias agudás, contadas no nosso pilar sobre a comunidade agudá.
Organizar uma visita a Ouidah com um guia local →
Fontes
- Fondation Zinsou, Wikipédia (francês): criação, acervo, orçamento, público, Praemium Imperiale.
- Musée d'Art contemporain de Ouidah, Wikipédia (francês): abertura, casa, serviços, exposições.
- Fundação Zinsou, história e Fundação Zinsou, a Villa Ajavon.
- Coleção Zinsou, no museu de Ouidah.
- Romuald Hazoumè, Wikipédia e La Bouche du Roi, Wikipédia.
- Malick Sidibé, Wikipédia, Samuel Fosso, Wikipédia e Frédéric Bruly Bouabré, Wikipédia.
- Chéri Samba, Wikipédia e Zanele Muholi, Wikipédia.
- Lionel Zinsou, Wikipédia e Émile Derlin Zinsou, Wikipédia.
- Marie-Cécile Zinsou, Wikipédia.
- MO.CO., "Cosmogonies. Zinsou, une collection africaine".
- Museu do quai Branly, restituição de 26 obras à República do Benim e Artnet, a exposição do palácio da Marina.


