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14 · diaspora

O Legado Brasileiro

Arquitetura, língua, comida e festas: o que a comunidade agudá trouxe do Brasil e ainda mantém vivo em Ouidah

In this pillar13 min
CHAVES

Pontos Principais

  • A Revolta dos Malês, na Bahia em 24 e 25 de janeiro de 1835, levou à expulsão de dezenas de africanos muçulmanos para o golfo do Benim. Outras levas de retorno se seguiram até 1888.
  • Os retornados trouxeram a arquitetura sobrado, a língua portuguesa, um catolicismo marcado pelo Brasil e uma culinária que ainda se encontra nas ruas de Ouidah.
  • O acarajé da Bahia e o akara/acloui de Ouidah são o mesmo prato, nascido em terra iorubá, transformado no Brasil, trazido de volta pelos retornados.
  • A Villa Ajavon, construída em 1922 por um comerciante de origem togolesa no estilo afro-brasileiro, abriga desde 2013 o museu da Fundação Zinsou, de entrada gratuita.
  • Sobrenomes como de Souza, da Silva, d'Almeida, Paraíso e Martinez ainda são usados hoje por famílias de Ouidah, Porto-Novo e Lagos.

Num quintal de Ouidah, de manhã cedo, uma mulher frita bolinhas de massa de feijão-fradinho em azeite de dendê. O gesto, a panela de barro, a técnica: é exatamente o que vendedoras fazem no mesmo momento em Salvador da Bahia, a seis mil quilômetros dali.

Ela está fazendo akara. Na Bahia, chamam de acarajé. O prato nasceu em terra iorubá, atravessou o Atlântico nos porões dos navios negreiros, se transformou no Brasil e voltou a Ouidah nas malas de quem se chama agudá.

Este pilar conta o que esse retorno deixou em Ouidah: não só fachadas, mas uma língua, uma culinária, uma festa, um conjunto de sobrenomes.

Um retorno, não apenas uma influência

Ouidah é frequentemente chamada de "a cidade mais brasileira da África". A frase é precisa, mas pode dar a impressão de uma curiosidade folclórica. A realidade vai mais fundo.

Por séculos, o golfo do Benim foi um dos grandes pontos de partida do tráfico atlântico. Centenas de milhares de pessoas partiram acorrentadas pela rota dos escravos de Ouidah, levando consigo a língua, os saberes, a teologia. No Brasil, essa cultura não desapareceu: se transformou, misturada à cultura colonial portuguesa, dando origem à civilização afro-brasileira da Bahia.

No século XIX, parte dessa história fez o caminho de volta. Pessoas livres, com ofícios, dinheiro e a memória de dois continentes, voltaram para a costa de onde os seus pais tinham sido deportados, e trouxeram a Bahia com elas.

A Revolta dos Malês e as levas de retorno

24-25 de janeiro de 1835

O estopim da primeira grande leva de retornos foi a Revolta dos Malês, o maior levante de escravizados da história das Américas. Na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, em Salvador da Bahia, africanos muçulmanos, escravizados ou libertos, na maioria iorubás e haussás, se levantaram contra o poder colonial. Várias lideranças conduziram o movimento, entre elas Ahuna, Pacífico Licutan e Manoel Calafate. As autoridades reprimiram a revolta em poucas horas.

Na sequência, dezenas de africanos, escravizados ou libertos, foram expulsos para a costa do golfo do Benim. É preciso cautela com números que às vezes circulam, como "cerca de 200" ou "993 pessoas": as fontes verificáveis falam de "dezenas" de deportados no período imediatamente posterior à revolta, um número mais modesto, mas melhor estabelecido. Vale também corrigir uma confusão comum: não foi o comerciante Francisco Félix de Souza, de Ouidah, quem organizou essas expulsões, e sim um homônimo, Francisco de Souza Martins, então presidente da província da Bahia, que reagiu ao levante reforçando a guarda e a vigilância da baía.

1850 e 1888

Uma segunda leva segue o fim do tráfico transatlântico no Brasil, em 1850. Uma terceira, ainda maior, segue a abolição da escravidão no Brasil em 1888. Esses últimos retornados chegam nas últimas décadas do século XIX e no início do XX, com uma cultura que amadurecera na Bahia por meio século.

Juntas, essas levas transformaram Ouidah de um jeito ainda visível hoje.

A arquitetura do retorno

O sobrado

A herança mais visível é arquitetônica. O sobrado, casa de dois andares típica de Salvador, foi transplantado para Ouidah. Antes da chegada dos agudás, a arquitetura residencial da cidade era formada sobretudo por moradias de taipa e cobertura de palha. Os retornados introduziram construção em alvenaria durável, fachadas em tons pastel, ferragens ornamentais, janelas com venezianas e pátios internos.

Essas casas estão concentradas hoje nos bairros de Brasil, Zomaï e Docomè, e não num "bairro Singbomey", nome que na verdade designa a residência da família de Souza. O nosso pilar sobre a comunidade agudá detalha essa geografia.

A Villa Ajavon

O exemplo mais acessível desse vocabulário arquitetônico é a Villa Ajavon, construída em 1922 por um rico comerciante de origem togolesa, num estilo que combina uma cobertura característica, tetos altos para amenizar o calor, janelas largas para ventilação e uma decoração que mistura influências europeias e o saber-fazer local.

Desde 11 de novembro de 2013, a vila abriga o museu da Fundação Zinsou, criada em 2005 pela historiadora da arte Marie-Cécile Zinsou. A entrada é gratuita. O nosso pilar sobre a Fundação Zinsou conta a história completa.

Uma fé moldada por dois continentes

Os agudás trouxeram do Brasil uma prática do catolicismo diferente da dos missionários franceses: uma fé que tinha crescido, na Bahia, ao lado do candomblé, sem nunca se opor frontalmente a ele.

A expressão mais visível dessa história em Ouidah é a catedral afro-brasileira, que fica de frente para o templo das pítons, do outro lado de uma rua de areia. É preciso, no entanto, cautela com algumas afirmações que circulam a seu respeito: a missa dominical em português "congelada nos anos 1850", ou a associação automática do dia 15 de agosto com a figura do vodu Ezili Freda, não são fatos claramente estabelecidos por fontes escritas, mas observações locais a verificar no terreno. O nosso pilar sobre a catedral trata do assunto em detalhe.

Uma festa nascida na Bahia: o Bonfim e a Burrinha

A origem exata da Burrinha está em outra grande festa baiana: a de Nosso Senhor do Bonfim, uma das mais populares de Salvador, misturando devoção católica e práticas de origem africana desde o século XIX. Parte das suas festividades populares, no fim do século XIX, incluía uma apresentação de rua chamada burrinha, muito popular na Bahia da época.

Foi essa tradição que os retornados transportaram para a costa africana. No segundo domingo depois da Epifania, assim como no Brasil, a comunidade agudá de Porto-Novo, e em menor grau a de Ouidah, sai às ruas para reencenar, à sua maneira, a festa do Bonfim. É um traço direto e datável de um empréstimo cultural preciso, mais sólido do que muitas generalidades que se leem por aí sobre o assunto.

O carnaval agudá

Todo ano, Ouidah celebra a sua versão do carnaval agudá, muito distante do espetáculo do Rio ou mesmo dos grandes desfiles de Salvador. É uma festa de bairro, enraizada na memória do retorno.

Os grupos desfilam pelos bairros Brasil e Zomaï, misturando trajes portugueses do século XIX e panos da África Ocidental, metais e tambores, cantos em fon, iorubá e português antigo. No centro da festa, a dança da Burrinha encena, com humor e sem rodeios, figuras coloniais: o feitor, o senhor de escravizados, o administrador. É um riso que não perdoa tudo, mas que desloca o peso da história.

Uma culinária que fez a travessia duas vezes

A comida é a memória mais íntima, a que ninguém consegue proibir.

Acarajé, akara, acloui

O prato nasceu em terra iorubá como akara, um bolinho frito de massa de feijão-fradinho. Pessoas escravizadas o levaram para a Bahia, onde virou acarajé, vendido nas ruas pelas baianas de acarajé, cortado ao meio e recheado com camarão e molhos de dendê. Os retornados o trouxeram de volta a Ouidah, onde também é chamado de acloui. Mesmo gesto, mesmo óleo, mesma receita, a milhares de quilômetros e duas travessias de distância.

Vatapá e caruru, a família do acarajé

O acarajé nunca viaja sozinho. Na Bahia, é servido com vatapá, uma pasta de camarão, castanha de caju moída e leite de coco, e caruru, feito com quiabo e dendê, um prato nascido nas cozinhas dos terreiros de candomblé e oferecido às divindades antes de ser compartilhado com os fiéis. Os dois pratos também têm origem na África Ocidental: o nome vatapá vem de uma palavra iorubá, e os seus ingredientes, o dendê à frente, são os da cozinha desta costa.

Em Ouidah, não se encontram necessariamente esses pratos com os mesmos nomes, mas a lógica culinária, a do dendê, do feijão-fradinho e dos molhos grossos, é a mesma dos dois lados do Atlântico. É uma culinária que nunca precisou atravessar o oceano para existir: já existia nas duas margens antes do tráfico, que simplesmente a colocou em contato consigo mesma.

Dendê e doces de festa

Outras preparações à base de dendê, além de alguns bolos de festa de origem luso-brasileira, entraram no calendário culinário de Ouidah por esse mesmo caminho, e às vezes se distinguem das receitas beninenses mais comuns por detalhes de preparo vindos da Bahia.

Um espelho, não uma cópia

Seria fácil descrever o legado brasileiro de Ouidah como uma simples importação, uma cópia da Bahia colada na costa africana. A realidade é mais interessante: o que os agudás trouxeram de volta não era só brasileiro, já era africano, remodelado por um século e meio de vida na Bahia, e remodelado de novo ao voltar.

O acarajé já era africano antes de virar brasileiro. A arquitetura sobrado misturava técnicas portuguesas com necessidades tropicais herdadas da África. O catolicismo agudá carregava, por baixo da superfície, uma teologia que nunca tinha realmente deixado o vodun. O que Ouidah recebeu no século XIX não era, portanto, uma cultura estrangeira, mas a sua própria cultura, que tinha partido e voltado transformada pela viagem.

É isso que diferencia o legado brasileiro de Ouidah de uma diáspora comum: não é uma comunidade que se espalhou longe de casa, é uma comunidade que saiu de casa e depois voltou para casa trazendo o que aprendeu no caminho.

Uma língua contra o tempo

Um português antigo, herdado das famílias agudás, sobreviveu por muito tempo na memória de algumas casas de Ouidah, transmitido pela oração familiar mais do que pela escola. Não é o português do Brasil contemporâneo, mas uma forma mais antiga, mantida viva pelo uso privado, não por instituições.

Esse tipo de sobrevivência linguística é frágil por natureza: sem transmissão ativa, uma língua de família desaparece em uma ou duas gerações. A situação exata desse uso em Ouidah hoje, sobretudo a questão de uma missa regular celebrada em português, mereceria ser verificada no local, e não afirmada como fato absoluto.

O que esse legado deve ao próprio tráfico

É tentador contar essa história como uma simples reconciliação feliz. Vale resistir a essa tentação. O legado brasileiro de Ouidah existe porque o tráfico existiu. Sem a deportação de milhões de pessoas para o Brasil, não teria havido comunidade afro-brasileira na Bahia, nem sobrado, nem acarajé para trazer de volta. O retorno dos agudás é uma resposta a uma violência, não o seu apagamento.

É também uma história que não poupa ninguém moralmente. Alguns retornados, sobretudo nas levas posteriores a 1850, continuaram se apoiando em redes comerciais nascidas do próprio tráfico, às vezes ligados por sangue a comerciantes que o organizaram. O legado brasileiro de Ouidah não é uma história simples de vítimas que voltaram para curar feridas: é uma história emaranhada, em que comércio, religião, família e violência se cruzam sem nunca se separar por completo.

Um sobrenome com dupla história

De Souza é o sobrenome mais carregado de Ouidah: pertenceu ao comerciante que organizou parte do tráfico de escravizados da região, e pertence a famílias que voltaram do Brasil, algumas das quais realmente descendem dele. Carregar esse nome hoje é carregar os dois lados dessa história.

Da Silva, d'Almeida, Paraíso, Martinez marcam outros ramos dessa genealogia transatlântica, com ofícios e trajetórias diferentes, mas uma mesma origem: o retorno do Brasil.

Um laço que continua

O circuito entre Ouidah e a Bahia não se fechou no século XIX. Pesquisadores e visitantes brasileiros continuam viajando a Ouidah, sobretudo em torno da Fundação Zinsou, que regularmente apresenta artistas ligados a essa história transatlântica. No sentido inverso, membros da comunidade agudá de Ouidah mantêm laços, às vezes familiares, com a Bahia.

Esse laço continua sendo, na maior parte, individual e informal, não institucional: até onde se sabe, não existe um programa universitário formal e permanente entre Ouidah e Salvador dedicado a esse tema, e qualquer afirmação nesse sentido deve ser verificada antes de ser repetida.

Uma comparação que os brasileiros vão reconhecer

Para um visitante brasileiro, sobretudo baiano, esse retorno tem um efeito de espelho quase físico. Caminhar pelos bairros de Ouidah, ver as mesmas cores de fachada, sentir o mesmo cheiro de dendê fritando, é reconhecer pedaços da própria terra do outro lado do Atlântico. Poucos outros lugares da diáspora africana oferecem essa sensação com tanta clareza.

Isso também levanta uma pergunta incômoda, mas justa: por que foi possível para uma parte dos africanos escravizados no Brasil voltar, enquanto isso praticamente não aconteceu com os que foram levados para os Estados Unidos? A resposta está, em parte, no tempo: o tráfico para o Brasil continuou por décadas depois de proibido nos EUA (1808), e a Bahia manteve comunidades livres de africanos, com dinheiro e redes, numa escala que os Estados Unidos nunca permitiram no mesmo grau. O legado brasileiro de Ouidah é, portanto, também uma lição sobre como a história da escravidão se desenrolou de formas muito diferentes pelas Américas.

O que diferencia Ouidah de Porto-Novo e de Lagos

O retorno do Brasil não envolveu só uma cidade. Porto-Novo e Lagos também têm os seus bairros afro-brasileiros, às vezes maiores que os de Ouidah. O nome da Burrinha, aliás, está mais fortemente associado a Porto-Novo do que a Ouidah nas fontes disponíveis.

O que diferencia Ouidah é a sobreposição desse legado com o legado do próprio tráfico. Em nenhum outro lugar da costa, a herança da partida (a rota dos escravos, a Porta do Não Retorno) e a herança do retorno (os sobrados, o acarajé, a Villa Ajavon) ficam a poucas centenas de metros uma da outra. É essa proximidade geográfica, mais do que o tamanho da própria comunidade agudá, que faz de Ouidah um lugar único para entender o que o tráfico atlântico produziu, nos dois sentidos.

O futuro desse legado

O legado brasileiro de Ouidah enfrenta as mesmas pressões que o resto do patrimônio da cidade: manutenção cara dos sobrados, transmissão linguística em declínio, erosão gradual da memória familiar conforme as gerações passam.

Mas ele não está desaparecendo: está mudando de forma. O trabalho da Fundação Zinsou, o interesse crescente de visitantes da diáspora e o reconhecimento internacional de Ouidah como lugar de memória são as novas formas que esse legado assume no século XXI.

Visitar o patrimônio brasileiro

Onde: os bairros Brasil, Zomaï e Docomè concentram a maior densidade de casas de estilo afro-brasileiro.

Não deixe de ver:

  • A Villa Ajavon, sede do museu da Fundação Zinsou, entrada gratuita, aberta todos os dias.
  • A catedral, em frente ao templo das pítons.
  • Uma caminhada pelos bairros Brasil e Zomaï com um guia que conheça as famílias e as suas histórias.

Notas práticas:

  • Peça sempre permissão antes de fotografar o interior de uma casa particular.
  • Um guia local transforma uma simples caminhada numa leitura genealógica do bairro.
  • Combine a visita com o pilar sobre a comunidade agudá para uma visão completa.

Melhores momentos:

  • O segundo domingo depois da Epifania, para a festa da Burrinha, quando acontece.
  • Os Vodun Days, em janeiro, para ver todo o panorama religioso da cidade, agudás incluídos.
  • Um mercado matinal, para provar o akara na fonte. Vá com fome, e prepare-se para comer em pé, como sempre foi vendido.

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Fontes

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Sobre o autor

Team Origins

Pesquisador de Patrimônio & Fundador

Team Origins is the research team behind Ouidah Origins, a multilingual digital heritage platform dedicated to documenting, preserving, and sharing the cultural memory of Ouidah, Benin. Our work bridges academic research, Vodun spirituality, and diaspora reconnection, creating a digital sanctuary that serves millions of descendants worldwide.

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