Pontos Principais
- Francisco Félix de Souza nasceu a 5 de outubro de 1754 em Salvador da Bahia, no Brasil, e chegou a Ouidah por volta de 1788. Morreu lá a 8 de maio de 1849, com 94 anos — uma vida que abrange quase todo o apogeu do tráfico transatlântico de escravos.
- O título 'Chacha' deriva do seu bordão em português 'já, já' — as palavras que ele usava para tranquilizar os clientes de que as suas encomendas seriam satisfeitas. A representação fonética em Fon tornou-se o título conferido pelo rei Ghezo após o golpe de Estado de 1818.
- A sua fortuna pessoal à data da sua morte foi estimada no equivalente a 120 milhões de dólares — colocando-o entre os indivíduos mais ricos do mundo em meados do século XIX. À data da sua morte, ele possuía 12.000 escravos por sua própria conta.
- Ele ajudou o rei Ghezo a derrubar o seu irmão Adandozan em 1818 — enquanto estava detido na prisão de Adandozan. Ele organizou o golpe de Estado a partir da sua cela. Quando Ghezo venceu, fez de de Souza o Chacha de Ouidah e concedeu-lhe direitos comerciais exclusivos na costa.
- Bruce Chatwin passou anos a pesquisar de Souza antes de escrever O Vice-Rei de Ouidah (1980); Werner Herzog adaptou a obra ao cinema como Cobra Verde (1987). A linhagem da família de Souza continua com o Chacha IX, cuja família ainda detém o título e organiza cerimónias comemorativas anuais.
No centro de Ouidah, há uma praça com o nome de um comerciante de escravos.
Praça Chacha. Não está escondida num canto da cidade, nem marcada com um asterisco de desculpa. É a praça principal — o coração comercial pulsante do centro histórico de Ouidah, a poucas centenas de metros da Catedral, a poucas centenas de metros do Templo dos Pítons e exatamente no início da Rota dos Escravos que segue para sul até à Porta do Não Retorno. A praça tem o nome de Francisco Félix de Souza, conhecido como o Chacha — o homem que, durante três décadas, fez da deportação de seres humanos a partir desta cidade a operação comercial mais bem organizada na costa atlântica.
O nome dele está na praça. Os seus descendentes ainda vivem nesta cidade. A catedral que ele ajudou a construir ainda se ergue do outro lado da rua do Templo dos Pítons.
Ouidah não pede desculpa por ele. Não o celebra. Simplesmente reconhece que ele esteve aqui, que o que ele construiu ainda está de pé, e que a questão sobre o que fazer com uma história como a dele não admite uma resposta limpa.
Esta é talvez a posição mais honesta que alguma cidade alguma vez assumiu sobre um dos seus cidadãos mais complicados.
Quem Realmente Foi Francisco Félix de Souza
Antes de podermos lidar com ele, precisamos de o ver claramente — o que exige resistir a dois impulsos opostos: o impulso de o reduzir a um monstro, e o impulso de o reabilitar como construtor.
Ele foi ambos. Nenhuma redução é adequada.
Francisco Félix de Souza (nascido a 5 de outubro de 1754 em Salvador da Bahia, Brasil; falecido a 8 de maio de 1849 em Ouidah) era, no auge da sua carreira, uma das três ou quatro pessoas mais ricas do mundo. A sua fortuna pessoal no momento da morte era estimada no equivalente a 120 milhões de dólares em valores atuais — uma fortuna construída inteiramente sobre a deportação organizada de seres humanos. À data da sua morte, ele detinha pessoalmente 12.000 indivíduos escravizados por sua própria conta.
Ele também foi um construtor de cidades. Financiou a construção do que viria a ser a Basílica da Imaculada Conceição — a catedral afro-brasileira que hoje se destaca como um dos edifícios arquitetonicamente mais notáveis da África Ocidental. Apoiou artesãos locais, manteve uma casa de centenas de pessoas e criou a infraestrutura comercial em torno da qual se construiu uma parte significativa da atual identidade urbana de Ouidah.
Ele foi o centro organizativo da comunidade Agudá — os retornados afro-brasileiros que trouxeram a arquitetura, a culinária e a fé sincrética brasileira de volta a Ouidah no século XIX. Ele foi o homem que Bruce Chatwin passou anos a tentar compreender antes de escrever O Vice-Rei de Ouidah (1980). Foi, simultaneamente, um dos maiores criminosos da história e um dos indivíduos com maior impacto na formação desta cidade.
A questão que Ouidah coloca, ao nomear a sua praça principal em sua honra, é: o que se faz com alguém assim?
A História Profunda
O Brasileiro em África (1754–1818)
Francisco Félix de Souza nasceu em Salvador da Bahia a 5 de outubro de 1754 — então capital da América Portuguesa e a cidade mais africana das Américas. A economia da Bahia assentava no trabalho escravo, e Salvador era o seu centro comercial: uma cidade portuária onde o tráfico de seres humanos era tão banal como o comércio de açúcar ou tabaco.
A família de Souza reivindicava ser descendente de Tomé de Sousa (1503–1579), o primeiro governador-geral da colónia portuguesa do Brasil — o que, a ser exato, faria de Francisco um descendente distante da nobreza portuguesa. Fosse essa linhagem real ou aspiracional, conferiu à família uma certa autoconceção que moldaria as ambições de Francisco ao longo da sua vida.
Chegou a Ouidah por volta de 1788 — um dos muitos comerciantes brasileiros atraídos para o Golfo da Guiné pelos vastos lucros do comércio de escravos. A costa já estava organizada em torno do comércio: os franceses, portugueses e britânicos mantinham fortes em Ouidah desde o século XVII, e o Reino do Daomé, que controlava a costa desde 1727, tinha estabelecido o comércio de escravos como o pilar económico do seu poder.
De Souza veio como agente comercial. Trouxe crédito, ligações comerciais brasileiras e os instintos organizacionais de um homem criado numa das culturas comerciais de tráfico de escravos mais sofisticadas do mundo. Rapidamente estabeleceu-se como uma figura importante no negócio — não ainda dominante, mas capaz e cada vez com melhores ligações.
Foi então que o rei Adandozan o colocou na prisão.
O Golpe a Partir da Cela (1818)
Os pormenores do aprisionamento são obscuros — a causa mais provável foi um diferendo sobre dívidas comerciais e os termos de acordos comerciais que Adandozan considerava desfavoráveis ao Reino. De Souza, da perspetiva do rei, era um mercador estrangeiro útil que se havia excedido. Adandozan mandou-o prender.
O que aconteceu a seguir é um dos episódios mais notáveis da história do comércio atlântico de escravos.
Enquanto estava preso — de acordo com os relatos preservados tanto pela família de Souza como pela tradição oral dahomeana — de Souza estabeleceu contacto com o príncipe Ghezo, o irmão mais novo do rei Adandozan e um homem com ambição e legitimidade para disputar o trono. De Souza, a partir do interior da prisão de Adandozan, propôs a Ghezo um negócio: financiamento, armas e as redes comerciais dos mercadores atlânticos brasileiros em troca do trono — e, assim que Ghezo triunfasse, em troca do título de Chacha e de direitos exclusivos de comércio costeiro.
Ghezo aceitou. De Souza organizou o golpe a partir da sua cela. Quando a fação de Ghezo avançou em 1818 e venceu, de Souza foi libertado. Numa questão de semanas, tornou-se o Chacha de Ouidah — vice-rei da cidade, agente comercial exclusivo do novo rei e a figura não africana mais poderosa da Baía do Benin.
A Origem do Título
A palavra "Chacha" tem uma história que passa ao lado da maior parte dos relatos da vida de de Souza.
Deriva, de acordo com as fontes históricas, do próprio bordão de de Souza em português. Quando parceiros, clientes ou os representantes do rei perguntavam se as encomendas seriam satisfeitas — se os navios estariam carregados, se os cativos estariam prontos, se os bens de troca chegariam — a resposta habitual de de Souza era "já, já". Era a tranquilização de um mercador, a promessa de serviço imediato.
A representação fonética em Fon de "já, já" tornou-se Chacha. A alcunha pegou. E quando Ghezo formalizou o estatuto de de Souza após o golpe, a alcunha tornou-se o título — a palavra para vice-rei em Ouidah.
O título mais poderoso da história comercial da cidade nasceu do reasseguramento impaciente de um comerciante brasileiro aos seus clientes.
O Império no seu Auge (1818–1849)
Nas três décadas que mediaram entre o golpe e a sua morte, de Souza construiu um império que não tinha paralelo na costa africana.
A sua base física era uma vasta propriedade no bairro de Singbomey, em Ouidah — um complexo de casas, armazéns, pátios e jardins que ocupava uma parte significativa do centro da cidade. No seu apogeu, a propriedade albergava centenas de pessoas: esposas, filhos, criados, escriturários, guardas e todo o aparelho de negócios da mais sofisticada operação de tráfico de escravos no mundo atlântico.
No auge das suas operações nas décadas de 1830 e 1840, a rede de de Souza movimentou um valor estimado de 10.000 a 15.000 cativos por ano. Os cativos chegavam do interior, fornecidos pelas campanhas militares do exército do Rei Ghezo — incluindo as Agojie. Eram processados na Praça Chacha: inspecionados, marcados a ferro quente com as marcas das empresas compradoras, avaliados em bens de troca (búzios, têxteis, pólvora, álcool) e conduzidos para sul pela Rota dos Escravos até às barracas e, por fim, para os navios ao largo da costa.
De Souza era a inteligência logística por detrás deste sistema. Ele sabia quais os capitães europeus que estavam no porto, que preços pagavam os mercados brasileiro e cubano, quando vender e quando reter, como negociar com a estrutura política do Reino e como gerir as relações financeiras através de três continentes que mantinham o comércio a funcionar. Não era um homem brutal no sentido banal — tinha uma reputação de fiabilidade comercial e generosidade pessoal que o tornava útil para todos no sistema. Ele libertou alguns escravizados. Apoiou artesãos. Ajudou a financiar a catedral.
Ele também organizou a deportação sistemática de centenas de milhares de seres humanos. Ambas as coisas foram verdadeiras em simultâneo e sem aparente contradição da sua parte.
Morreu em Ouidah a 8 de maio de 1849, aos 94 anos. Tinha vivido durante todo o período de apogeu do tráfico transatlântico de escravos, tinha organizado mais desse tráfico do que talvez qualquer outra pessoa e tinha construído uma cidade no processo.
De Souza Hoje
Praça Chacha
Fique na Praça Chacha numa manhã de dia de semana e observe como funciona: mototáxis em fila, vendedores a oferecer crédito telefónico e milho assado, estudantes a atravessar para o mercado, a pulsação comum de uma cidade da África Ocidental. A praça tem o nome de um homem que processava seres humanos neste terreno como mercadoria. Transporta o seu nome da forma como uma rua carrega qualquer nome antigo — por hábito, pela história, pela recusa característica da cidade em fingir que o seu passado foi algo diferente do que realmente foi.
O nome não é um monumento. Não é um aval. É a versão de Ouidah para uma contabilidade honesta: isto aconteceu aqui, este homem fê-lo acontecer, e a cidade que ele construiu ainda funciona nos alicerces que ele deitou.
A Casa de Família
A casa da família de Souza no bairro de Singbomey continua de pé. É um lar familiar habitado — não é um museu — tal como o é há quase dois séculos. A família chefia a comunidade Agudá de Ouidah, os regressados afro-brasileiros que voltaram de Salvador da Bahia no século XIX e cuja herança arquitetónica, culinária e cultural é visível em todo o centro histórico.
O atual detentor do título é Chacha IX, que supervisiona as cerimónias comemorativas anuais da família. Estas cerimónias fundem o catolicismo brasileiro com a cultura local Vodun — um sincretismo que personifica perfeitamente a identidade dupla do homem cuja linhagem continuam: católico e Vodun, brasileiro e beninense, construtor e traficante de escravos, honrado e não resolvido.
O mausoléu de Francisco Félix de Souza é também visitável em Ouidah, junto à propriedade da família. Trata-se de uma estrutura modesta e cuidada que recebe os visitantes que ali chegam para se colocarem diante da sepultura de uma das figuras mais marcantes e perturbadoras da história.
Na Literatura e no Cinema
Bruce Chatwin passou anos a pesquisar sobre de Souza antes de escrever O Vice-Rei de Ouidah (1980) — um relato alucinatório de uma vida que resistiu à simplificação moral. O romance não é uma biografia; é uma meditação sobre a impossibilidade do homem. Chatwin percebeu que os factos da vida de de Souza não podiam ser organizados numa narrativa moral coerente sem os falsificar.
Werner Herzog adaptou o romance como Cobra Verde (1987), com Klaus Kinski — talvez o único ator capaz de transmitir a combinação específica de carisma, instabilidade e vazio moral que de Souza exigia — no papel principal. O filme é tão desorientador quanto a sua personagem.
Nenhuma destas obras lisonjeia de Souza. Nenhuma o condena de forma simplista. Ambas são honestas sobre a dificuldade do seu caso.
A Dimensão da Diáspora
A Contradição Transportada Além-Oceano
A relação de de Souza com a diáspora africana segue simultaneamente em duas direções — e a contradição entre ambas é a versão mais comprimida de todo o paradoxo histórico de Ouidah.
Na primeira direção: De Souza foi um dos principais arquitetos da migração forçada que originou a diáspora africana. As suas redes organizaram a saída de centenas de milhares de pessoas desta costa para o Brasil, Cuba e as Caraíbas. Genealogicamente falando, ele é em parte responsável pela travessia que separou milhões de pessoas do continente ao qual os seus descendentes tentam agora religar-se.
Na segunda direção: O seu nome de família — de Souza, mas também da Silva, Paraíso, d'Almeida através das redes Agudá que ele consolidou — é hoje perpetuado por famílias proeminentes em toda a costa da África Ocidental e em toda a diáspora brasileira. Os afro-brasileiros que regressaram a Ouidah no século XIX, muitos dos quais navegando pelas rotas comerciais que de Souza criara, optaram por se identificar através de nomes associados ao seu legado. E muitos afro-brasileiros que chegam hoje a Ouidah, em busca das suas raízes, exibem o nome de Souza nos seus passaportes.
Chegar a Ouidah ostentando aquele apelido é deparar-se com a forma mais concentrada possível de ironia da diáspora: o nome do homem que organizou a deportação dos teus antepassados é também o nome que os teus antepassados escolheram transportar quando voltaram.
É isto que Ouidah faz com a história: recusa-se a deixá-la ser simples. De Souza não pode ser colocado na coluna do vilão e esquecido. Não pode ser colocado na coluna do herói e celebrado. Ele situa-se, literalmente, no centro da principal praça da cidade e pede a cada visitante que conhece a sua história que se sente com o desconforto de um passado que não se resolve.
A Dimensão Moral
O que tornou de Souza possível — o que fez dele não uma aberração, mas uma figura representativa — foi o mundo que o formou.
Nasceu numa sociedade em que a escravização dos africanos não era apenas legal, mas economicamente estruturante. Salvador da Bahia funcionava à custa do trabalho escravo. O império português, que tornou a Bahia possível, funcionava dessa mesma forma. O Reino do Daomé, ao qual de Souza se aliou, funcionava dessa forma. As economias de plantação brasileiras e cubanas, que compravam os seus cativos, funcionavam dessa forma. De Souza não inventou um sistema. Otimizou um sistema que já existia e era mantido por governos, sistemas jurídicos, instituições religiosas e as escolhas diárias de milhões de pessoas comuns em três continentes.
Isto não é um argumento atenuante. É uma afirmação sobre escala. O sistema que tornou de Souza possível era muito maior do que de Souza, e o acerto de contas moral que o seu nome convida não deve terminar nele — deve estender-se a cada instituição, governo e economia que nele participaram.
Ouidah entende isto. É por isso que a praça não tem outro nome. Mudar o nome da Praça Chacha seria sugerir que de Souza era a aberração — o mau ator numa história limpa de outro modo. Não era. Ele foi a expressão lógica de um sistema que operava à escala global. Manter o seu nome na praça é a forma de Ouidah manter todo o sistema visível.
As suas contradições — a catedral e as barracas de escravos, as pessoas escravizadas libertadas e os 12.000 que manteve sob o seu poder pessoal — não eram as contradições de uma consciência perturbada. Eram as contradições de um homem que encontrou maneiras de ser generoso dentro de um sistema do qual lucrava. É precisamente isso que o torna historicamente representativo em vez de único. Ele foi, desta forma específica, como a maioria das pessoas poderosas nas sociedades esclavagistas.
A questão que ele deixa é: o que devemos às pessoas que ele traficou? E quem partilha essa dívida com ele?
Como Visitar
Praça Chacha
A praça é um espaço público — aberto, ativo e vulgar. A forma mais profunda de a viver é colocar-se no centro, compreender de quem é o nome que a designa, observar a cidade a funcionar à sua volta e guardar simultaneamente as duas realidades: esta é uma cidade viva e este é o local onde foi gerido o seu pior capítulo.
A Rota dos Escravos começa aqui, no limite sul da praça. Caminhar daqui até à Porta do Não Retorno é o encontro físico mais direto com as consequências do trabalho de de Souza.
A Casa da Família e o Mausoléu
A casa da família de Souza em Singbomey é uma habitação familiar. Pode ser visitada com um guia que tenha uma relação estabelecida com a família — não chegue sem aviso. O mausoléu é acessível através de guias locais e faz parte da maioria dos roteiros pedonais de Ouidah centrados na história.
O Museu de História (Forte Português)
O Museu de História de Ouidah, no interior do Forte Português, documenta as operações comerciais de de Souza — réplicas de livros de registos, a infraestrutura física do comércio — e é o melhor local para contextualizar o seu papel dentro do sistema global.
O Que Poucos Sabem
O Título "Chacha" Veio do Seu Bordão
O título comercial mais forte da história de Ouidah não foi uma invenção do Daomé. Tratou-se de uma representação fonética em Fon de uma mensagem tranquilizadora de um comerciante brasileiro para com os seus clientes impacientes.
Sempre que lhe perguntavam se as encomendas estariam prontas, de Souza respondia habitualmente "já, já". A expressão era tão emblemática que se converteu na sua alcunha. Quando, após o golpe de Estado de 1818, Ghezo ratificou o título de vice-rei de Ouidah para de Souza, a alcunha tornou-se o próprio título.
Já, já → Chacha.
O vice-rei de Ouidah ficou, assim, com o nome da impaciência de um comerciante.
Organizou o Golpe a Partir da Prisão
A história convencional sobre a ascensão de de Souza mostra-o como um mercador aliado a Ghezo na destituição de Adandozan. O que esse relato raramente realça é a conjuntura exata em que o fez: de Souza estruturou o golpe de Estado quando se encontrava aprisionado na prisão do rei Adandozan.
Não era um homem livre que tivesse escolhido alinhar-se com os vencedores. Era um prisioneiro que, do fundo da sua cela, financiou e organizou a mudança do regime servindo-se da sua rede de influências comerciais além-fronteiras. Todo o trabalho de logística, como coordenar com os seguidores de Ghezo, obter acesso às linhas de crédito brasileiras e antever a melhor oportunidade política para levar a cabo o golpe a partir da sua reclusão, impressiona de qualquer perspetiva histórica.
Ao triunfar e ditar a sua libertação, de Souza saiu da prisão de Adandozan para assumir, ato contínuo, a posição de vice-rei de Ouidah. A passagem do estatuto de preso para figura central e poderosa de toda a costa mercantil cumpriu-se em menos de 12 meses.
Foi um dos Homens Mais Ricos do Mundo
Ao falecer em 1849, a fortuna de de Souza rondava os 120 milhões de dólares de hoje, tornando-o, naquela época, um dos homens mais ricos do mundo. Detinha em seu poder, a título estritamente pessoal, 12.000 pessoas como escravas.
Teve no mínimo 80 filhos com várias mulheres que habitavam sob o seu teto. À data do seu falecimento, os seus descendentes diretos cifravam-se em mais de 300, ramificando a sua linhagem para além das fronteiras do Benim, alcançando o Togo e a Nigéria.
Ouidah nunca foi para ele um passatempo pontual com prioridades deixadas longe dali. Foi toda a sua obra. Lá chegou como agente mercantil, permaneceu 61 anos para edificar nessa cidade o mais ativo pólo de comércio negreiro do mundo atlântico — onde acabaria por perecer, na enorme propriedade por si fundada, perante as marcas de todo o seu percurso.
Se Quiser Aprofundar Mais
Francisco Félix de Souza é a figura por onde passam todos os fios da história de Ouidah. Compreendê-lo — honestamente e sem simplificações — é o requisito fundamental para compreender a cidade. A Rota dos Escravos, a comunidade Agudá, a catedral, as Agojie, a diáspora: tudo está ligado a este homem e ao sistema que serviu e ajudou a alargar.
O serviço de Concierge do OuidahOrigins proporciona-lhe percursos historialmente precisos aos principais marcos da família de Souza — como a propriedade, o mausoléu e a praça —, mediante os préstimos de especialistas em cultura dotados do rigor necessário para descrever o peso real de toda esta herança, recusando falsificá-la numa de várias perspetivas redutoras.
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Tudo em Ouidah se liga a de Souza. As Agojie serviram o rei que ele ajudou a coroar. A Rota dos Escravos arranca na praça que exibe o seu nome. A edificação da Catedral Afro-Brasileira deveu-se, entre outras coisas, ao seu estatuto de patrono. A comunidade Agudá deslocou-se através dos canais de navegação por si estabelecidos. Ele é, assim, o ponto de convergência de toda a memória histórica de Ouidah.
Fontes e Mais Leituras
- Francisco Félix de Souza — Wikipédia — Registo biográfico exaustivo com as fontes primárias.
- Família de Souza — Wikipedia (EN) — O percurso de toda a família pelas fronteiras de Benim, Togo e Nigéria.
- O Primeiro Chacha do Ajudá — Smithsonian Institution — Os registos do Smithsonian em torno da sua ação e dos seus ecos.
- O Legado de Francisco Félix de Souza — Ana Lucia Araujo (PDF) — Artigo de cariz académico a dissecar as vias negreiras e todas as pontes encetadas pela sua ação para a criação da diáspora.
- Base de Dados SlaveVoyages — Repositório detalhado sobre a atividade marítima subjacente a tudo aquilo que de Souza geria. Encontre registos em "Ouidah".
- Chacha IX — Site Oficial — Arquivos genealógicos e as funções cerimoniais asseguradas pela geração familiar atual.
- Reino do Daomé — Wikipedia — O regime que o acolheu e serviu.
Perguntas Frequentes
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A Porta do Não Retorno
A porta do não retorno, erguida em Ouidah, não é apenas um marco, mas uma ferida aberta na memória coletiva. Cada passo até aqui ressoa com as vozes do passado.

A Árvore do Esquecimento
No coração de Ouidah, a Árvore do Esquecimento se ergue como um testemunho da luta pela identidade. Por quase 200 anos, um ritual calculado falhou em apagar a memória coletiva dos africanos escravizados, revelando a força do legado cultural.

O Forte Português
Ao atravessar os portões do Forte Português, você entra em um lugar carregado de história, onde a memória dos escravos se mistura aos vestígios de uma colónia esquecida.
Percursos de leitura
A Rota dos Escravos
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