Francisco Félix de Souza | O Chacha de Uidá
O Chacha — Negreiro, Construtor, Antepassado Ambíguo
Nasceu na Bahia, morreu em Uidá. Pelo meio: um golpe, um título, 10 000 a 15 000 cativos por ano. Os seus descendentes ainda vivem aqui. A cidade ainda carrega o seu nome.
Index
Pontos Principais
- Francisco Félix de Souza nasceu por volta de 1754 em Salvador da Bahia, Brasil, e chegou a Uidá por volta de 1788. Morreu ali a 8 de maio de 1849 — uma vida que abarca quase todo o auge do tráfico atlântico.
- Em 1818 ajudou o Príncipe Ghezo a derrubar o seu irmão Rei Adandozan, fornecendo crédito, armas e redes mercantis brasileiras. Ghezo concedeu-lhe o título de Chacha — vice-rei de Uidá e agente exclusivo de todo o comércio costeiro.
- No auge das suas operações nos anos 1830–1840, a sua rede tratava cerca de 10 000 a 15 000 cativos por ano, tornando-o um dos maiores traficantes de escravos individuais da história do comércio atlântico.
- Contribuiu para o financiamento da Catedral da Imaculada Conceição, libertou alguns escravizados, apoiou artesãos locais — enquanto simultaneamente geria a maior rede negreia da costa beninense. A contradição não foi acidental: era a sua vida.
- Bruce Chatwin imortalizou-o em 'O Vice-Rei de Uidá' (1980), adaptado por Werner Herzog como 'Cobra Verde' (1987). A sua linhagem continua com Chacha VIII, Honoré Féliciano de Souza, cuja família ainda organiza missas comemorativas anuais em Uidá.
O Homem Que Reinou na Costa
No coração de Uidá, existe uma praça com o nome de um negreiro. A Praça Chacha. Não está escondida, não é motivo de vergonha — está simplesmente ali, no quotidiano da cidade, a algumas centenas de metros da Rota dos Escravos. Este paradoxo diz tudo sobre a complexidade da memória em Uidá.
Francisco Félix de Souza nasceu por volta de 1754 em Salvador da Bahia, no Brasil. Morreu em Uidá a 8 de maio de 1849. Nesse intervalo, tornou-se um dos maiores traficantes de escravos do Atlântico — e uma das figuras mais fascinantes e perturbadoras da história da costa da África Ocidental.
Como um Brasileiro se Tornou Vice-Rei de Uidá
De Souza chegou à costa beninense por volta de 1788 como agente comercial — mais um oportunista atraído pelos lucros consideráveis do tráfico negreiro no golfo da Guiné. Rapidamente se encontrou no centro das lutas de poder do Reino do Daomé.
O golpe que mudaria a sua vida chegou em 1818. O Príncipe Ghezo, irmão mais novo do rei reinante Adandozan, precisava de recursos e apoio político para tomar o trono. De Souza forneceu ambos: crédito, armas e as redes comerciais que havia construído com mercadores brasileiros. Quando Ghezo saiu vitorioso, recompensou o seu aliado brasileiro com o título de Chacha — vice-rei de Uidá e agente comercial exclusivo do rei ao longo de toda a costa.
Esse comércio era, acima de tudo, o tráfico de escravos. No auge das suas operações nos anos 1830 e 1840, a rede de De Souza tratava cerca de 10 000 a 15 000 cativos por ano. Construiu feitorias, armazéns, uma residência suntuosa e a infraestrutura de um pequeno império comercial. Vivia em Uidá como um rei: rodeado de mulheres, filhos, criados — e da consciência do que fazia.
O Homem e a Contradição
Francisco de Souza é uma figura impossível de reduzir. Organizou a deportação de centenas de milhares de seres humanos. Também contribuiu para o financiamento da Catedral da Imaculada Conceição, libertou alguns escravizados, apoiou artesãos e ajudou a edificar uma cidade. Gerações de beninenses carregam o seu sangue. A comunidade Aguda — em grande parte descendente ou ligada a ele — trouxe a Uidá uma arquitetura, uma gastronomia e rituais que enriquecem a cidade até hoje.
As suas contradições não eram as de uma consciência perturbada. Eram as contradições de um homem que operava dentro de um sistema que também ajudava a manter, encontrando formas de ser generoso no seu interior enquanto lucrava com as suas piores dimensões. É precisamente isso que o torna historicamente irredutível.
A sua vida atraiu escritores de primeiro plano precisamente porque resiste a qualquer resolução moral simples. Bruce Chatwin passou anos a pesquisá-lo antes de escrever O Vice-Rei de Uidá (1980) — um relato alucinatório de um homem que era simultaneamente construtor e destruidor. Werner Herzog adaptou o livro como Cobra Verde (1987), com Klaus Kinski no papel principal. Nenhuma das obras lisonjeia o seu sujeito. Nenhuma o condena simplesmente.
A Casa De Souza: Um Testemunho Vivo
A casa da família De Souza ainda existe no bairro Singbomey de Uidá. Não é um museu — é uma residência familiar habitada, e tem sido assim há quase dois séculos. A família lidera a comunidade Aguda de Uidá: esses afro-brasileiros que regressaram a África a partir dos anos 1830, e cuja arquitetura, nomes e tradições moldaram a identidade da cidade.
Chacha VIII, Honoré Féliciano de Souza, é o atual representante desta linhagem. Todos os anos, a família organiza uma missa comemorativa e rituais que misturam o catolicismo brasileiro com a cultura Vodun local — um sincretismo que reflete perfeitamente a ambivalência do legado.
Nenhum monumento em Uidá condena De Souza. Nenhum o glorifica verdadeiramente. A Praça Chacha carrega o seu nome como uma cidade carrega o nome de uma rua antiga — por hábito, por história, pela impossibilidade de fingir que este passado não existiu.
Em Uidá, a sua memória é um espelho. Reflete a pergunta que a cidade faz a todos os seus visitantes: como vive uma sociedade com o que fez?
Explore a Comunidade Aguda e a Catedral Afro-Brasileira para compreender como o legado que De Souza ajudou a criar moldou o rosto de Uidá.
Perguntas Frequentes
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