Pontos Principais
- A palavra "agudá" vem de Ajudá, o nome português de Ouidah. Designa os escravizados libertos e as pessoas livres que voltaram do Brasil e de Cuba a partir de 1835.
- Os agudás se instalaram nos bairros de Brasil, Zomaï e Docomè, e não num "bairro Singbomey", que na verdade é o nome da residência da família de Souza.
- A Maison du Brésil, no bairro Zomaï, data de 1930 e pertence à família de Souza. Hoje abriga um museu.
- A basílica da Imaculada Conceição (1903-1909) foi construída por iniciativa da missão católica de Dom Dartois, com ajuda de cristãos e fiéis do vodun, e não pelos agudás.
- Sobrenomes portugueses como de Souza, da Silva, d'Almeida, Paraíso e Martinez ainda são usados hoje em Ouidah, Porto-Novo e Lagos.
No bairro de Zomaï, em Ouidah, um sobrado de dois andares chama a atenção. Fachada ocre, sacada de ferro trabalhado, um andar sobre um térreo em arcadas. Não é uma casa fon nem uma vila colonial francesa. É um sobrado, no mesmo estilo que se encontra em Salvador da Bahia. Ali o chamam de Maison du Brésil, a Casa do Brasil.
Sozinha, ela conta a história dos agudás: pessoas que atravessaram o Atlântico acorrentadas, e cujos descendentes voltaram livres para reconstruir parte da cidade que os tinha visto partir.
Este pilar explica quem eram os agudás, por que voltaram, onde se instalaram, o que construíram e o que resta hoje da sua presença em Ouidah.
Quem eram os agudás?
A palavra agudá vem de Ajudá, o nome português de Ouidah. Segundo a Wikipédia, desde o início do século XVIII o termo já designava, entre os escravizados do Daomé, o próprio Brasil. Depois passou a designar as pessoas que voltavam desse país.
Os agudás eram escravizados libertos e pessoas livres de cor vindas do Brasil, na maioria da Bahia, e em menor número de Cuba. Muitos tinham aprendido ofícios especializados no Brasil: pedreiros, carpinteiros, comerciantes, alfaiates. Uma vez livres, escolheram voltar à costa de onde eles próprios, ou os seus pais, tinham sido deportados.
O movimento de retorno começou em 1835, depois da Revolta dos Malês, e continuou em levas até o fim do século XIX.
Não voltaram de mãos vazias. Muitos tinham um ofício, economias, às vezes relações comerciais dos dois lados do Atlântico. Esse capital, econômico e cultural ao mesmo tempo, permitiu que formassem rapidamente uma classe de comerciantes e artesãos reconhecida na costa.
As levas de retorno
1835: a Revolta dos Malês
A primeira leva segue a Revolta dos Malês, na Bahia em 1835, o maior levante de escravizados das Américas, liderado por muçulmanos, em maioria iorubás e haussás. A revolta assustou as autoridades coloniais, que expulsaram centenas de africanos livres, envolvidos ou não no levante.
Esses deportados chegaram à costa com a língua portuguesa, a fé católica e os ofícios aprendidos na Bahia.
Francisco de Souza e as redes comerciais
Uma figura domina essa história: Francisco Félix de Souza, comerciante nascido na Bahia em 5 de outubro de 1754, chegado a Ouidah por volta de 1788 e morto na cidade em 8 de maio de 1849, aos 94 anos. Ele ajudou o futuro rei Guezo a subir ao trono do Daomé, o que lhe rendeu o título de Chachá, da expressão portuguesa "já, já", que usava para tranquilizar os clientes.
De Souza fundou uma linhagem numerosa com várias companheiras africanas. Os seus descendentes, a família de Souza, continuam sendo uma das famílias mais em evidência de Ouidah: o título de Chachá ainda passa de geração em geração, ocupado no início do século XXI por Moïse de Souza, o nono do nome. Segundo a Wikipédia, a ex-primeira-dama do Benim, Chantal Yayi, é tataraneta de Francisco de Souza. O nosso pilar sobre Francisco de Souza conta a sua vida em detalhe.
1850 e 1888: o fim do tráfico e da escravidão
Uma segunda leva segue o fim do tráfico transatlântico no Brasil, em 1850, quando alguns comerciantes e intermediários redirecionaram as suas redes para a costa africana. Uma terceira leva, maior, segue a abolição da escravidão no Brasil em 1888. Muitos desses últimos retornados se apoiaram nas redes comerciais deixadas por comerciantes como Francisco de Souza para se instalar como comerciantes em Ouidah, Porto-Novo e Lagos.
Os bairros agudás
Ao contrário do que às vezes se lê, não existe um "bairro Singbomey" agudá. Singbomey é o nome da residência da família de Souza, não de um bairro da comunidade.
Os bairros onde os agudás se instalaram em Ouidah são Brasil, Zomaï e Docomè. É neles que se concentram as casas de estilo afro-brasileiro, com fachadas pintadas, venezianas ornamentais e pátios internos.
Uma rede costeira, não uma única cidade
Os agudás não se instalaram só em Ouidah. As suas comunidades formam uma rede que percorre toda a antiga Costa dos Escravos, até a Nigéria.
Em Lagos, os retornados do Brasil, muitas vezes chamados saros quando vinham de Serra Leoa e agudás quando vinham do Brasil, fundaram a partir da década de 1830 um bairro conhecido como Popo Aguda, o "bairro brasileiro". Ali estão os mesmos estuques cor de creme, as mesmas janelas curvas, a mesma mistura entre o traçado iorubá e os estilos barroco e neoclássico brasileiros do século XIX.
Esse patrimônio continua frágil. O Ilojo Bar, também chamado Olaiya House, construído em 1855 em Lagos e tombado como monumento nacional já em 1956, foi demolido em 2016, apesar dos esforços dos órgãos de patrimônio para salvá-lo. A Water House, construída para João Esan da Rocha, ainda existe, mas o exemplo do Ilojo Bar mostra como esse patrimônio pode desaparecer depressa, em Lagos como no resto da costa.
Uma arquitetura vinda da Bahia
Antes da chegada dos agudás, Ouidah era formada sobretudo por moradias tradicionais de taipa e cobertura de palha. Os retornados trouxeram o sobrado, a casa colonial brasileira, construída em alvenaria durável, em cores pastel que lembram o Pelourinho de Salvador, com pátios internos onde às vezes convivem um altar católico e um altar vodun.
A Maison du Brésil
O edifício mais conhecido desse patrimônio é a Maison du Brésil, no bairro Zomaï. Segundo a Wikipédia, a sua estrutura data de 1930: é um prédio da família de Souza, construído no estilo afro-brasileiro, com um andar sobre o térreo. Hoje abriga escritórios e um museu, entre eles uma sede da agência nacional do patrimônio turístico, e exibe temporariamente obras do museu de história de Ouidah durante obras de restauro.
A catedral: obra da missão, não dos agudás
Às vezes se lê que a basílica da Imaculada Conceição foi construída "sob o patrocínio e com a mão de obra dos agudás". Não é isso que dizem as fontes.
Segundo a Wikipédia, a construção começou em 1903 por iniciativa de Dom Louis Dartois, primeiro vigário apostólico do Daomé, com a pedra fundamental lançada em 30 de agosto de 1903. Dom Dartois morreu em 1905; o padre François Steinmetz, sagrado bispo em outubro de 1906, acelerou as obras, concluídas em 1909. Os operários eram cristãos locais, e, segundo a Wikipédia, fiéis do vodun (vodounsi) ajudaram os vizinhos cristãos levando água e apoiando a obra.
Durante a escavação das fundações, no terreno do antigo Agoré, sede dos representantes reais do Daomé, os operários encontraram restos humanos no fundo de um poço de quase sete metros. Não se trata da descoberta de "santuários vodun" em 1967, como às vezes se lê: é um fato documentado durante a própria construção, no início do século XX.
A basílica foi elevada a basílica menor pelo papa João Paulo II em 9 de novembro de 1989. O nosso pilar sobre a catedral afro-brasileira trata do assunto em detalhe.
Um patrimônio ameaçado
A arquitetura afro-brasileira de Ouidah não está livre desse mesmo risco. Um artigo publicado em 2025 numa revista de arquitetura, dedicado ao patrimônio agudá no golfo do Benim, registra tetos desabados, minaretes se desfazendo e árvores crescendo dentro das paredes de alguns edifícios históricos. Os pesquisadores defendem modelos de preservação que envolvam mais os moradores e os guardiões locais desse saber, em vez de intervenções puramente institucionais.
O governo do Benim já destinou recursos para restaurar parte do patrimônio de Ouidah, sobretudo o forte português. Mas as casas privadas dos agudás dependem, em boa parte, da manutenção dos próprios donos.
Os sobrenomes de família
O sinal mais duradouro da identidade agudá continua sendo o sobrenome português. Os de Souza estão associados ao comércio e à posse de terras. Os da Silva ficaram conhecidos como fotógrafos e impressores. Os d'Almeida e os Paraíso estão presentes na educação e no comércio. Esses nomes se encontram hoje em Ouidah, Porto-Novo, Lagos e Lomé.
Uma identidade que se transmite além do sangue
Ao longo das gerações, os casamentos com as populações fon, iorubá e gun tornaram as fronteiras da comunidade cada vez mais porosas. Filhos dessas uniões às vezes tomaram o sobrenome português do pai, mesmo sem ascendência agudá direta: carregar esse nome dava certo prestígio social. Ao contrário, alguns descendentes de agudás perderam o sobrenome de origem por casamento.
O resultado é que hoje, um sobrenome português em Ouidah não garante, por si só, uma genealogia agudá comprovada. O que mais conta para a comunidade é a memória oral e a prática cultural: saber qual ramo da família chegou em que ano, qual bisavó ainda falava português em casa, quais festas se continuam a celebrar. Os conselhos de família, que ainda se reúnem hoje, são os guardiões dessa memória.
Uma cultura que ainda se pode provar
A herança agudá não se limita às fachadas. O acloui, um bolinho de feijão-fradinho frito, é a versão beninense do acarajé vendido pelas baianas em Salvador: o mesmo gesto, a mesma técnica de fritura, a milhares de quilômetros de distância.
O carnaval agudá, mais intimista que as grandes festas nacionais do Benim, mistura metais e tambores, trajes portugueses do século XIX e panos da África Ocidental, cantos em fon, iorubá e português. A dança da Burrinha é um dos seus momentos altos: uma figura satírica que zomba das autoridades que um dia escravizaram os ancestrais de quem hoje dança.
O catolicismo ocupa um lugar particular nessa identidade. Trazido do Brasil, funcionou por muito tempo como sinal de status social e proximidade com a administração colonial, e depois com o Estado independente. Em muitas famílias agudás, convive com a prática do vodun: um catolicismo de fachada e um culto aos ancestrais e às divindades locais que continua, muitas vezes no mesmo quintal.
O laço com o Brasil e Cuba
O retorno dos agudás criou uma rede que ainda atravessa o Atlântico.
Na Bahia, várias casas de candomblé de tradição jeje, ou seja, de origem fon/daomeana, remontam a linhagem a essa mesma costa. A mais conhecida é o Bogum, em Salvador (Zoogodô Bogum Malê Rundó), fundado entre o fim do século XVIII e o início do XIX, e a sua casa irmã, o Seja Hundé, em Cachoeira (Zogbodo Male Bogun Seja Unde), fundada em 1858. A tradição as liga a uma mulher mahi, Ludovina Pessoa, que, segundo a lenda, teria sido escolhida pelos voduns para fundar esses templos. São essas casas jeje, e não as grandes casas nagô como a Casa Branca do Engenho Velho ou o Ilê Axé Opô Afonjá (fundado em 1910 por Mãe Aninha, de origem iorubá), que guardam o laço direto com o Daomé.
Em Cuba, várias famílias com sobrenomes como de Souza ou da Silva têm laços genealógicos com essas mesmas redes de retornados da África Ocidental. A tradição religiosa lucumí preservou ali parte da cosmologia iorubá que viajou pelas mesmas rotas.
Essa rede transatlântica também funciona no sentido inverso. Pesquisadores e descendentes brasileiros viajam com frequência a Ouidah para buscar vestígios dos seus ancestrais, às vezes até nas coleções do MIME, que guarda documentos e objetos ligados à história do tráfico e às suas consequências. Para muitos, encontrar um sobrenome conhecido, carregado por famílias bem vivas em Ouidah, muda a forma como entendem a própria história: a diáspora deixa de ser uma abstração e vira um endereço, um rosto, uma conversa possível.
Um cruzamento de línguas
Um último detalhe diz muito dessa história: a língua. Em algumas casas agudás, até uma ou duas gerações atrás, ainda se falava um português baiano transmitido em família, ao lado do fon e do francês. Esse português nunca foi o de Portugal nem o do Brasil contemporâneo: fixado pela distância e pelo tempo, carrega traços de uma Bahia do século XIX que o próprio Brasil já esqueceu em boa parte.
Esse trilinguismo, ou quadrilinguismo com o iorubá em algumas famílias, resume a posição singular dos agudás: nem totalmente africanos no sentido local do termo, nem totalmente brasileiros, mas as duas coisas ao mesmo tempo, carregados por uma história que atravessou o oceano duas vezes.
Uma história mais complexa do que um simples retorno
Seria simplificar demais reduzir a história agudá à de vítimas que voltaram para curar feridas. A realidade é mais complexa. Alguns retornados, sobretudo nas levas posteriores a 1850, chegaram não só como antigos escravizados libertos, mas também como participantes das mesmas redes comerciais nascidas do próprio tráfico, às vezes ligados por sangue a comerciantes como Francisco de Souza.
Essa ambiguidade não é escondida em Ouidah: faz parte da memória da comunidade. Os agudás não construíram as suas casas, escolas e igrejas apagando essa história, mas ao lado dela. Para muitos descendentes que hoje carregam nomes como de Souza, um nome ligado no Brasil a um traficante de escravizados, essa herança continua sendo assunto de conversa, não um tabu.
O que isso significa para os visitantes brasileiros
Para um brasileiro, a história agudá tem um efeito de espelho particular. O Brasil recebeu o maior número de africanos escravizados de todas as Américas, e foi um dos últimos países a abolir a escravidão, em 1888. Foi também, por isso mesmo, um dos poucos lugares de onde um retorno em massa para a África foi possível: houve tempo, houve redes, houve gente livre o bastante, cedo o bastante, para fazer a travessia de volta.
Caminhar por Zomaï ou pelo bairro Brasil é, para um visitante da Bahia, quase como reconhecer a própria rua em outro continente: as mesmas cores, o mesmo formato de sobrado, às vezes o mesmo sobrenome de um vizinho. É uma experiência que poucos outros lugares da diáspora oferecem com essa clareza.
Buscar os próprios ancestrais
Para visitantes afrodescendentes que querem estabelecer um vínculo jurídico com o Benim, o país criou a lei de 2024 sobre a nacionalidade dos afrodescendentes, por meio da plataforma My Afro Origins, e não um programa chamado "Viagem de Retorno", que não existe com esse nome. O nosso artigo dedicado ao tema detalha os critérios e os trâmites.
Para um descendente de agudás vindo do Brasil, essa busca costuma ter uma forma particular: documentos em português, certidões de batismo, transações de terras, correspondência familiar, às vezes existem tanto na Bahia quanto em Ouidah, inclusive nas coleções do MIME (Museu Internacional da Memória e da Escravidão).
Visitar o patrimônio agudá
Para conhecer essa herança, percorra os bairros Brasil, Zomaï e Docomè, começando pela Maison du Brésil. Um guia local pode explicar as genealogias por trás de certas fachadas e facilitar um encontro com membros da comunidade.
Para observar:
- As fachadas em tons pastel dos sobrados, com ferragens e venezianas de madeira.
- As placas com sobrenomes nos pilares dos portões (de Souza, da Silva, d'Almeida).
- Os pátios internos visíveis através das grades, onde às vezes convivem altares católicos e santuários vodun.
- A própria Maison du Brésil, no bairro Zomaï.
Notas práticas:
- Não há taxa fixa para passear pelos bairros; a Maison du Brésil, como museu, pode cobrar entrada.
- Peça sempre permissão antes de fotografar o interior de uma casa particular ou um santuário.
- Um guia faz muita diferença para entender os lugares e respeitar os costumes locais.
Para prolongar a visita:
- A catedral afro-brasileira, a poucas ruas da Maison du Brésil, combina bem com esse passeio.
- A praça Chachá e os vestígios de Francisco de Souza permitem remontar à origem dessa história.
- Para quem seguir viagem para o leste, Porto-Novo e Lagos também guardam um patrimônio afro-brasileiro importante, com as suas próprias redes de famílias agudás.
O melhor momento
O passeio funciona em qualquer época, mas dois momentos se destacam. O domingo de manhã, em torno da missa na basílica, reúne parte da comunidade católica da cidade, agudás incluídos. Durante os Vodun Days, em janeiro, algumas famílias agudás abrem os seus pátios e participam dos cortejos, numa mistura deliberada de catolicismo e culto vodun que resume bem a sua história.
No resto do ano, uma simples caminhada pelos bairros Brasil, Zomaï e Docomè, com a câmera guardada na maior parte do tempo, já basta para sentir o que essa comunidade deixou para a cidade: casas de pé há um século, e sobrenomes que ainda se ouvem, todos os dias, nas ruas de Ouidah.
Organizar uma visita guiada ao patrimônio agudá →
Fontes
- Agouda, Wikipédia: etimologia, levas de retorno, Cuba, arquitetura afro-brasileira.
- Maison du Brésil (Maison de Mémoire), Wikipédia: construção em 1930, família de Souza, bairro Zomaï.
- Basilique de l'Immaculée-Conception de Ouidah, Wikipédia: Dom Dartois, 1903-1909, restos humanos nas fundações, vodounsi, basílica menor (1989).
- Terreiro Zoogodô Bogum Malê Rundó, Wikipedia e Terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde, Wikipedia: casas jeje da Bahia, Ludovina Pessoa.
- Full article: Aguda/Afro-Brazilian architectural heritage in the bight of Benin, Journal of Architecture, 2025: bairros Brasil, Zomaï, Docomè.
- Francisco Félix de Souza, Wikipedia e De Souza family, Wikipedia: biografia, título de Chachá, descendência, Chantal Yayi.
- Ilojo Bar, Wikipedia: arquitetura afro-brasileira de Lagos, demolição de 2016.
- CSMonitor, "In Porto-Novo's Afro-Brazilian architecture, traces of complex history", 2020.
- O nosso artigo My Afro Origins e a lei de 2024 sobre a nacionalidade dos afrodescendentes.




